Chapter 3
Rafe levou Bernadete e Marin para o escritório reservado no fundo do restaurante, longe dos olhos curiosos da equipe e da ainda irritada Vivienne, que foi mandada para casa com uma frieza que ela claramente não esperava receber do próprio noivo.
— Me mostra o que você encontrou — Rafe pediu a Bernadete, assim que a porta se fechou.
Ela abriu a pasta sobre a mesa, apontando para as planilhas.
— Nos últimos quatro meses, o valor total de gorjetas registrado no sistema sempre bate com o que a gerência relata. Mas o valor que realmente chega às mãos dos garçons é sistematicamente menor. Alguém está desviando uma porcentagem antes da distribuição final.
Rafe analisou os números com atenção, o rosto ficando cada vez mais sério.
— Quem tem acesso a esse sistema entre a contabilidade e a distribuição?
— Só duas pessoas, Sr. Santoro. O gerente noturno, Derek Wallace, e… — Bernadete hesitou.
— E quem mais?
— E a Srta. Whitlock, que começou a “ajudar” com a supervisão financeira do restaurante há cerca de cinco meses, segundo a senhora sua mãe sugeriu, para ela se familiarizar com os negócios da família antes do casamento.
O silêncio que se seguiu foi pesado o suficiente para sufocar qualquer um na sala.
Rafe fechou os olhos por um instante, absorvendo aquilo, enquanto Marin, ainda sentada num canto, parecia querer desaparecer completamente da situação.
— Você tem certeza absoluta disso, Bernadete?
— Tenho os registros de acesso ao sistema, senhor. Toda vez que o desvio acontece, o login usado é o da Srta. Whitlock.
Rafe se virou para Marin, que até aquele momento não tinha dito uma palavra sequer.
— Você sabia de alguma coisa sobre isso?
Marin hesitou, claramente calculando o risco de falar demais.
— Eu só sei que minhas gorjetas vêm menores do que deveriam há meses, Sr. Santoro. Mas não é meu lugar questionar isso.
— É seu lugar, sim, se está sendo roubada.
Marin ficou em silêncio, os olhos baixos, e Rafe percebeu, pela primeira vez, o quanto aquela mulher parecia acostumada a engolir injustiças sem reclamar.
— Qual é seu nome completo? — ele perguntou, de repente, a pergunta pegando todos de surpresa, inclusive ele mesmo.
— Marin Hollis — ela respondeu, rápida demais, como quem repete uma mentira ensaiada há anos.
Rafe a observou por um momento longo, algo incomodando ele que ele não conseguia identificar completamente.
— Tem certeza?
Marin engoliu em seco, e pela primeira vez, algo em sua expressão vacilou.
— Por que o senhor está perguntando isso?
— Porque, quando você quase esbarrou em mim ontem à noite, reparei numa coisa no seu chaveiro. Uma placa de latão. Achei familiar, mas não consegui lembrar o motivo até agora.
O rosto de Marin perdeu toda a cor.
— Eu preciso ir — ela disse, se levantando rapidamente. — Meu turno…
— Seu turno pode esperar — Rafe disse, a voz firme, mas não ameaçadora. — Marin, eu preciso saber a verdade. Você tem alguma ligação com a minha família?
O silêncio que se seguiu durou o suficiente para que Bernadete, sentindo a tensão crescer entre os dois, decidisse se retirar discretamente da sala, levando consigo a pasta de documentos.
Assim que ficaram sozinhos, Marin finalmente se virou para encarar Rafe, os olhos cheios de uma dor antiga que parecia ter esperado anos para poder ser dita em voz alta.
— Meu nome verdadeiro é Marin Santoro. Sou filha do seu tio Salvatore, que sua família decidiu apagar completamente da história depois que ele se recusou a continuar nos negócios ilegais e tentou expor parte do que a organização fazia, há quinze anos.
Rafe sentiu o chão balançar sob os próprios pés.
— Isso não é possível. Meu tio Salvatore morreu num acidente de carro.
— Foi isso que contaram para você — Marin disse, a voz tremendo. — A verdade é que ele foi silenciado. E minha mãe e eu tivemos que desaparecer completamente, mudar de sobrenome, para sobreviver.
