Chapter 2
Não consegui me mexer.
— O que o senhor disse? — sussurrei.
Dante não repetiu. Não precisava. As palavras já tinham se acomodado dentro do meu peito como uma pedra.
— Sente-se, Clara — disse Vivian, apontando pra cadeira vazia à frente dela. A voz dela era gentil, quase maternal, o que de alguma forma tornava tudo mais assustador.
Sentei.
Dante ficou de pé, sem tirar os olhos de mim.
— Quinze anos atrás — começou Vivian, entrelaçando as mãos sobre a mesa —, seu pai fez algo por esta família que nos poupou de muitos problemas. Algo que ele nunca contou a você, imagino.
— Meu pai tinha uma lavanderia — falei. — Passava terno. Ele não fazia favores pra gente como a senhora.
— Não fazia? — o sorriso de Vivian continuou perfeito no lugar. — Pergunte a ele sobre um homem chamado Frank Territo, um dia desses. Pergunte o que ele viu na noite em que Frank desapareceu.
Meu estômago revirou.
— Não sei do que a senhora está falando.
— Eu acredito em você — disse Vivian. — É justamente esse o ponto.
Dante finalmente falou. — Minha mãe tem o hábito de testar as pessoas antes de confiar nelas, Srta. Bennett. A senhorita acabou de passar no primeiro teste. O anel.
— E o segundo teste? — perguntei, com a voz trêmula.
— É saber se você pode ser útil pra esta família sem fazer perguntas demais — respondeu Vivian, por ele.
Olhei pros dois, sentindo como uma mulher em cima de um alçapão que ela nem tinha percebido que existia até ele começar a abrir.
— Eu tenho um irmão que precisa pagar contas de cirurgia — falei, com cuidado. — Tenho um pai que preciso proteger. Eu não tenho nada que uma família como a de vocês ia querer.
— Você tem lealdade — disse Vivian. — E um pai que deve a esta família uma dívida que ele passou quinze anos tentando esquecer.
— Que tipo de dívida?
O olhar de Vivian foi até Dante, e algo passou entre os dois que eu não consegui decifrar.
— Isso — ela disse — é uma conversa pra outro dia.
Dante se abaixou um pouco, ficando na minha altura pela primeira vez.
— Aqui está o que vai acontecer, Clara. Você vai se mudar pra esta casa. Vai ser apresentada como minha noiva. E, em troca, qualquer dívida que pesa sobre a cabeça do seu pai desaparece.
— E se eu disser não?
— Então o seu pai vai ter que explicar pra polícia exatamente o que ele viu acontecer com Frank Territo — disse Vivian, num tom agradável, como se estivesse oferecendo mais chá. — Imagino que essa conversa seria bem menos confortável que esta aqui.
Senti a sala inteira inclinar.
— A senhora está me chantageando.
— Estou oferecendo uma troca — corrigiu Vivian. — Chantagem pressupõe que você não tem nada a ganhar.
Olhei pra Dante, procurando no rosto dele alguma coisa — hesitação, desconforto, qualquer sinal de humanidade.
Não havia nada.
— Ele tem alguma opinião nisso tudo? — perguntei, apontando pra ele. — Ou a senhora simplesmente escolhe a esposa dele como quem escolhe um móvel?
Pela primeira vez, algo passou pelos olhos de Dante. Não bem diversão. Não bem respeito. Alguma coisa no meio termo.
— Minha mãe tem opiniões fortes — disse ele. — Mas não, Srta. Bennett. Ela não escolhe por mim.
— Então por que o senhor não disse não?
Ele me estudou por um bom tempo.
— Porque, pela primeira vez em cinco “entrevistas” este mês, alguém nesta sala está dizendo a verdade em vez do que acha que eu quero ouvir.
Vivian sorriu como quem observa o próprio plano se desenrolar exatamente como planejado.
— Está resolvido, então — disse ela, levantando da cadeira. — O Miguel vai levar suas coisas do alojamento dos funcionários até o fim da tarde.
— Eu não concordei com nada — falei.
— Vai concordar — disse Vivian, sem se virar. — Assim que ligar pro seu pai hoje à noite e perguntar sobre Frank Territo.
Ela saiu da sala.
Dante ficou, me olhando com uma expressão que eu não conseguia identificar.
— Pelo que valha — disse ele, baixinho —, sinto muito por você ter se metido nisso.
— Sente mesmo? — perguntei. — Ou isso é só o que o senhor diz pras que devolvem o anel?
Ele não respondeu.
Naquela noite, sozinha no quarto de hóspedes que me deram, liguei pro meu pai.
A voz dele quebrou no instante em que eu disse o nome Frank Territo.
— Clara — sussurrou ele. — Onde você ouviu esse nome?
— Preciso que o senhor me conte a verdade, pai. Tudo.
Houve um longo silêncio na linha.
— Não pelo telefone — ele disse, por fim. — Tem coisa que a gente não diz pelo telefone. Não sobre essa família.
— Pai…
— Você está segura? — ele interrompeu, a voz de repente afiada de medo. — Clara, você está segura agora?
Olhei em volta do quarto — as cortinas de seda, os seguranças postados do lado de fora da minha porta, o anel ainda dentro de uma caixinha de veludo em cima da penteadeira.
— Ainda não sei — respondi, sendo sincera.
Meu pai soltou o ar, trêmulo.
— Então sai dessa casa — disse ele. — Sai hoje mesmo, antes que eles decidam o que você realmente vale pra eles.
Mas já era tarde demais pra isso.
Porque, do lado de fora do meu quarto, eu conseguia ouvir a voz de Vivian, baixa e satisfeita, falando com alguém ao telefone.
— Ela topou — disse. — Avisa as outras que o casamento vai acontecer. E avisa a Marissa Vale pra controlar a decepção dela — ou eu lembro a ela o que acontece com mulheres que não sabem perder com elegância.
