Chapter 4
Não consegui dormir naquela noite.
Cada rangido daquela mansão antiga soava como passos do lado de fora da minha porta. Cada sombra no teto parecia o sorriso de Sabrina Cole.
Ao amanhecer, encontrei Dante no escritório, o único cômodo da casa que parecia pertencer inteiramente a ele — sem seda, sem dourado, só madeira escura, livros antigos e um único abajur aceso contra a luz cinzenta da manhã.
— Você acordou cedo — disse ele, sem levantar os olhos dos papéis na mesa.
— Preciso saber o que a Sabrina quis dizer ontem à noite — falei. — Ela disse que eu estava no caminho dela. No caminho de quê?
Dante largou a caneta devagar.
— A família da Sabrina Cole deve uma quantia considerável pra minha — disse ele. — O pai dela pegou um empréstimo em cima de um negócio de construção, três anos atrás, que não deu certo. Minha mãe deixou a dívida quieta, esperando o momento certo pra cobrar.
— E o momento certo é um casamento.
— Se a Sabrina se tornasse minha esposa, a dívida desaparece — disse Dante. — A família dela mantém o negócio, a casa, a reputação. Se ela não conseguir, minha mãe cobra a dívida inteira, e os Cole perdem tudo em um mês.
— Então isso não é só sobre eu devolver um anel — falei devagar. — Isso é sobre quem é mais útil pra sua mãe.
— É sobre as duas coisas — admitiu Dante. — Você provou algo que minha mãe valoriza — honestidade, lealdade. A Sabrina representa outra coisa que ela valoriza — poder de barganha.
— E o que você valoriza? — perguntei.
Ele me olhou por um longo momento, algo indecifrável por trás dos olhos escuros.
— Eu costumava achar que valorizava controle — disse. — Ultimamente, não tenho mais tanta certeza.
Antes que eu conseguisse responder, a porta do escritório se abriu sem batida. Vivian entrou, impecavelmente vestida apesar da hora cedo, a expressão incomumente séria.
— Temos um problema — disse ela.
— Que tipo de problema? — perguntou Dante, se endireitando.
— O filho do Frank Territo — disse Vivian. — Ele anda fazendo perguntas pelo bairro antigo. Sobre o que aconteceu com o pai dele quinze anos atrás. Sobre um lavandeiro chamado Robert Bennett.
Meu coração parou. — Meu pai.
— Seu pai testemunhou algo que nunca deveria ter sobrevivido pra contar — disse Vivian, se virando pra mim. — A única razão dele estar vivo hoje é porque, há muito tempo, ele concordou em ficar calado e ser útil. Se o filho do Frank Territo continuar puxando esse fio, tudo desmorona — incluindo a segurança do seu pai.
— A senhora disse que essa dívida ia desaparecer se eu casasse com o Dante — falei, a voz subindo. — Não disse nada sobre meu pai correr perigo de qualquer jeito.
— O mundo não para de ser perigoso só porque você fechou um acordo, Srta. Bennett — disse Vivian, friamente. — Ele só muda quem está te protegendo dele.
Dante deu um passo à frente. — Eu vou resolver a situação do Territo.
— Resolva com discrição — avisou Vivian. — A última coisa que esta família precisa é mais atenção enquanto estamos finalizando um noivado.
Ela saiu tão de repente quanto chegou.
Afundei na cadeira em frente à mesa de Dante, as mãos tremendo.
— Meu pai está mesmo em perigo? — perguntei.
Dante ficou quieto por tempo demais.
— Sim — ele finalmente disse. — Mas não por causa de nada que você fez. Ele carrega esse risco desde antes de você ter idade pra entender o que isso significava.
— Então ajuda ele — falei. — Não por causa de noivado nenhum. Porque é a coisa certa a fazer.
Algo mudou na expressão de Dante — surpresa, talvez, por eu ter pedido em vez de negociar.
— Vou mandar meus homens pra Geórgia hoje — disse ele. — Seu pai vai ficar protegido.
— Por quê? — perguntei. — Você não me deve nada ainda. A gente nem está noivo de verdade. Não é nada de verdade.
Dante contornou a mesa, parando perto o bastante pra eu precisar olhar pra cima pra encará-lo.
— Porque, em algum momento entre o anel na mesa da minha mãe e esta conversa — disse ele, baixinho —, eu parei de ver você como parte do plano dela.
Não soube o que responder.
Antes que eu encontrasse as palavras, um grito ecoou de algum lugar mais profundo da casa — agudo, apavorado, inconfundivelmente real.
Dante já estava se movendo antes mesmo de eu processar o que tinha ouvido.
Encontramos Sabrina Cole no corredor leste, ajoelhada ao lado de um carrinho de chá derrubado, as mãos pressionadas contra um corte na testa, sangue escorrendo pelo pulso.
— Alguém me empurrou — ela ofegou, olhando pra nós com os olhos arregalados de medo. — Alguém estava no corredor, e me empurrou escada abaixo.
Os olhos de Dante varreram o corredor vazio.
— Você viu quem foi?
O olhar de Sabrina deslizou, só por um segundo, na minha direção.
— Acho — disse ela devagar — que pode ter sido ela.
