Chapter 2
O coração martelava contra as costelas quando finalmente entendi quem estava deitada ao meu lado.
Emma.
Ela dormia — ou tentava dormir — enroscada na ponta da cama, ainda vestindo o uniforme de limpeza, um dos meus cobertores puxado até o queixo. O rosto, sem a máscara de determinação que ela usava durante o dia, parecia mais jovem, mais frágil, marcado por olheiras profundas.
Larguei a arma de volta debaixo do travesseiro, o coração ainda acelerado, mas por motivos que já não tinham nada a ver com perigo.
— Emma.
Ela acordou de um pulo, os olhos arregalados de puro terror ao perceber onde estava. — Merda. Merda, eu sinto muito, eu não devia… eu só ia descansar os olhos um minuto, eu juro…
— Que horas são?
— Quatro da manhã. — Ela já estava se levantando, ajeitando o uniforme amassado, evitando meu olhar. — Eu trabalhei um turno duplo na lanchonete antes de vir pra cá. Devo ter apagado. Por favor, não me demite. Eu preciso desse emprego.
Alguma coisa na voz dela — o pânico genuíno, a exaustão profunda demais para ser fingida — me fez parar antes de gritar o que normalmente gritaria.
— Sente-se.
— O quê?
— Eu disse pra sentar, Emma. Não vou repetir de novo.
Ela hesitou, depois sentou na beirada da cama, os ombros tensos, pronta para levantar a qualquer sinal de raiva.
— Você trabalha dois empregos.
— Três, contando os finais de semana que cuido da minha mãe pessoalmente quando a instituição libera visita estendida.
— Por quê?
Ela riu, um som sem humor. — Porque contas médicas não se pagam sozinhas, senhor Castellano.
O sobrenome saiu formal, distante, do jeito que ela sempre falava comigo — exceto que dessa vez havia algo mais suave por baixo, um cansaço que a deixava vulnerável demais para manter a fachada completa.
— Sua mãe está numa instituição de memória.
— Alzheimer precoce. Diagnosticada aos cinquenta e dois anos. — Emma esfregou os olhos. — Ela nem sempre me reconhece mais. Mas ainda precisa de cuidado vinte e quatro horas, e isso custa mais do que eu ganho em três empregos juntos.
Fiquei em silêncio, absorvendo aquilo. Em dois anos, ninguém tinha me contado nada real sobre a própria vida. Todo mundo naquela casa mantinha distância profissional cuidadosa, com medo de dizer a coisa errada e sofrer as consequências.
— Por que você não me contou isso antes?
— Porque não é da sua conta. — Ela finalmente ergueu os olhos para mim, o cansaço substituído por um traço de desafio. — Eu limpo sua casa. Não sou sua terapeuta nem sua confidente. Não preciso justificar por que estou exausta.
Algo parecido com respeito — uma emoção que eu quase tinha esquecido como sentir — se instalou no meu peito.
— Vá para casa — eu disse. — Descanse de verdade. Volte amanhã à noite, no horário normal.
— Eu ainda tenho duas horas de turno.
— Vá para casa, Emma. Isso é uma ordem, não uma sugestão.
Ela levantou, hesitante, como se esperasse que eu mudasse de ideia a qualquer segundo. Quando chegou na porta, parou.
— Obrigada. Por não me demitir.
— Não fiz isso por generosidade.
— Eu sei. — Um traço fraco de sorriso cruzou o rosto dela. — Você fez porque, no fundo, também está cansado de fingir que não precisa de ninguém.
Ela saiu antes que eu conseguisse formular uma resposta.
Nas semanas seguintes, algo mudou entre nós — sutil, quase imperceptível para qualquer outra pessoa na casa, mas presente. Emma continuava trabalhando com a mesma eficiência silenciosa, mas começou a ficar alguns minutos a mais no meu escritório à noite, trazendo chá que eu não pedia, ajustando o cobertor sobre minhas pernas sem fazer alarde.
Luke notou primeiro.
— Você está diferente — ele comentou, entrando no escritório numa tarde. — Não gritou com ninguém essa semana inteira.
— Estou ocupado.
— Está apaixonado.
— Cala a boca, Luke.
Ele riu, mas o riso morreu rápido quando viu minha expressão. — Danny, eu digo isso como amigo. Se você está mesmo sentindo algo por essa garota, precisa ter cuidado. Você não é só um homem numa cadeira de rodas. É um alvo. Sempre foi. E qualquer pessoa próxima de você vira alvo também.
As palavras dele ficaram remoendo na minha cabeça pelo resto do dia.
Naquela noite, quando Emma entrou para o turno, percebi um hematoma escondido mal disfarçado por maquiagem no braço dela.
— O que aconteceu com seu braço?
Ela puxou a manga instintivamente. — Nada. Bati numa porta.
— Emma.
— É sério, não é nada.
Mas o jeito que ela evitou meu olhar me disse que era mentira. E pela primeira vez em dois anos, senti uma urgência que não tinha nada a ver com raiva ou controle — o desejo puro e visceral de proteger alguém que não fosse eu mesmo.
