Dois anos depois de a bala de um atirador de elite roubar o movimento das minhas pernas, todo mundo dentro da minha propriedade tinha aprendido a me temer

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Chapter 6

Seis meses se passaram desde a noite em que os Kozlov caíram, e a mansão que antes parecia um túmulo tinha se transformado lentamente em algo que eu quase tinha esquecido como reconhecer: um lar.

Emma se mudou oficialmente para a propriedade dois meses depois da crise — não como funcionária, mas como a mulher que eu amava, algo que ela ainda insistia em processar em voz alta de vez em quando, como se precisasse se lembrar de que aquilo era real.

A mãe dela foi transferida para uma instituição particular de excelência, mais perto da mansão, permitindo visitas diárias sem o peso da distância ou do custo pairando sobre cada decisão.

Comecei fisioterapia de novo — dessa vez com um terapeuta que Emma mesma escolheu, um homem paciente que entendia que “empurrar através da dor” significava algo completamente diferente para alguém com lesão medular completa. Os progressos eram lentos, quase imperceptíveis, mas presentes: sensibilidade parcial retornando em pontos isolados, força no tronco melhorando o suficiente para me permitir transferências mais independentes.

Nunca mais andaria — os médicos foram claros sobre isso desde o início. Mas, pela primeira vez em dois anos, eu não sentia que a cadeira de rodas definia quem eu era.

Numa tarde tranquila de domingo, Emma e eu estávamos sentados no jardim que eu tinha mandado reformar completamente — trilhas acessíveis, um lago pequeno onde patos nadavam displicentes, um espaço que finalmente parecia convidativo em vez de estéril.

— Luke me contou uma coisa engraçada hoje — Emma disse, sentada na grama ao lado da minha cadeira, a cabeça apoiada no meu joelho.

— O quê?

— Ele disse que você era conhecido, antigamente, como o homem mais temido de Chicago. Que ninguém ousava olhar você nos olhos.

Ri, um som que ainda me surpreendia às vezes, de tão pouco praticado que tinha ficado durante os anos sombrios. — E o que você disse pra ele?

— Que o homem mais temido de Chicago choraminga quando eu esqueço de esquentar o chá dele direito. — Ela ergueu os olhos, sorrindo. — A reputação não combina muito com a realidade, sabe.

— Você é a única pessoa que vê essa realidade.

— E pretendo continuar sendo. — Ela se sentou, virando-se completamente para me encarar. — Danny, eu preciso te perguntar uma coisa.

— Qualquer coisa.

— Você já pensou em desistir? De tudo isso — o negócio, o poder, as guerras territoriais? Não porque eu esteja pedindo. Só… você já pensou nisso?

Considerei a pergunta seriamente, algo que não teria feito há um ano atrás, quando a ideia de abandonar o controle absoluto parecia impensável.

— Todos os dias, ultimamente. — Segurei a mão dela. — Mas desmantelar algo assim não acontece da noite pro dia sem deixar um vácuo perigoso pra trás. Estou fazendo isso aos poucos. Transferindo territórios pra negócios legítimos. Cortando os laços mais violentos primeiro.

— E no fim?

— No fim, eu quero ser só um homem numa cadeira de rodas, com uma esposa que ele ama e talvez, algum dia, filhos que nunca vão precisar saber o que o pai fez pra sobreviver antes deles nascerem.

Os olhos de Emma se encheram de lágrimas. — Esposa?

Percebi, tarde demais, a palavra que tinha escapado. Mas, em vez de recuar, decidi seguir em frente completamente.

— Emma Carter. — Tirei do bolso do casaco um pequeno estojo que carregava havia semanas, esperando o momento certo. — Eu era um monstro numa fortaleza antes de você entrar na minha vida limpando rodapés e recusando ter medo de mim. Você me lembrou o que significa ser humano de novo. Quer passar o resto da vida lembrando isso pra mim, todos os dias?

Ela chorou, riu, e assentiu repetidamente antes de conseguir formar as palavras: — Sim. Sim, com certeza sim.

Enquanto colocava o anel no dedo dela, tremendo mais do que eu esperava para um homem que já tinha enfrentado guerras territoriais sem hesitar, percebi que a verdadeira vitória nunca tinha sido derrotar os Kozlov, ou reconstruir o império, ou sequer recuperar parte da sensibilidade nas pernas.

A verdadeira vitória tinha sido permitir que alguém entrasse através dos muros que eu tinha construído — e descobrir que, do outro lado deles, ainda havia um homem capaz de amar, e de ser amado de volta.

E você — já teve alguém que entrou na sua vida justamente quando você tinha certeza de que não merecia mais amor nenhum?

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