Eu entrei num leilão privado porque meu irmão mais novo precisava de uma cirurgia de duzentos mil dólares que eu jamais conseguiria pagar sozinha.

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Chapter 3

Nos dias seguintes, Sebastian insistiu em levar advogados até o hospital, discretamente, pra confirmar tudo através de um exame de DNA que Diego aceitou fazer sem entender completamente o motivo — só sabendo que, de alguma forma, aquele homem estranho e gentil que aparecia todo dia pra visitá-lo tinha alguma ligação com nossa família.

O resultado chegou numa terça-feira chuvosa.

Positivo. Confirmado. Sem qualquer dúvida.

Diego Santos era, oficialmente, filho de Richard Blackwood.

— Isso muda tudo pra ele — disse Sebastian, sentado ao meu lado na sala de espera do hospital, os documentos ainda quentes da impressora sobre o colo.

— Muda tudo pros dois. Pra nós.

Ele me olhou, algo suave e incerto cruzando a expressão sempre controlada.

— “Nós” — repetiu, quase testando a palavra.

— Você passou as últimas duas semanas aqui, Sebastian. Todo dia, mesmo com reuniões, mesmo com uma empresa inteira pra administrar. Isso não é só sobre herança.

— Não é, não.

O silêncio entre nós carregava algo que nenhum dos dois parecia pronto pra nomear ainda.

Foi interrompido pela chegada abrupta de uma mulher elegante, o rosto tenso de fúria mal disfarçada, seguida por dois advogados carregando pastas.

— Então é verdade — disse ela, os olhos fixos em mim como se eu fosse uma doença que precisava ser removida. — Você realmente trouxe essa… garota e o irmão dela pra dentro da nossa família.

— Victoria — disse Sebastian, levantando, a voz cortante. — Não aqui.

— Aqui é exatamente onde deveria ser, já que você decidiu transformar o hospital num palco pra essa novela.

— Diego é nosso irmão, Victoria. Isso não é negociável.

— Diego é o resultado de uma traição que nosso pai cometeu contra nossa mãe. E agora você quer que a gente entregue vinte por cento de tudo que construímos pra um garoto que nunca soube que existíamos até semanas atrás?

— Foi decisão do papai, não minha.

— O papai estava morrendo e cheio de culpa. Isso não significa que a decisão dele fosse sã.

Levantei, sentindo a necessidade de dizer algo, mas Victoria virou os olhos frios pra mim antes que eu conseguisse.

— E você. Imagino que esteja adorando essa reviravolta de sorte, não é? De repente sua vidinha simples ganha um irmão bilionário.

— Eu nunca pedi nada disso.

— Ninguém nunca pede, mas todo mundo aceita rápido o suficiente quando o dinheiro aparece.

— Chega, Victoria — cortou Sebastian, a voz mais dura do que eu tinha ouvido dele até então. — Se você tem problema com a decisão do nosso pai, resolve isso comigo, no escritório, com os advogados. Não aqui, não na frente do Diego, que está lutando pela vida a alguns metros de distância.

Victoria encarou o irmão por um longo momento, algo calculando por trás dos olhos furiosos.

— Isso não vai terminar do jeito que você imagina, Sebastian.

— É uma ameaça?

— É uma promessa. Vou contestar essa cláusula no testamento com todos os recursos legais que tivermos disponíveis. E, acredite, temos muitos.

Ela saiu tão abruptamente quanto tinha chegado, os advogados seguindo apressados atrás dela, deixando um silêncio pesado na sala de espera.

— Isso vai atrasar a liberação do dinheiro? — perguntei, o medo voltando com força total.

— Pode atrasar. Mas eu não vou deixar isso impedir a cirurgia do Diego, Maria. Vou adiantar o valor do meu próprio bolso, independente do que acontecer com a contestação de Victoria.

— Sebastian, isso é generoso demais.

— Não é generosidade. É família cuidando de família. Diego é meu irmão, com ou sem a aprovação de Victoria.

Aquela noite, sentados na cafeteria vazia do hospital, tomando café requentado às três da manhã, Sebastian finalmente perguntou algo que eu sentia que ele guardava há dias.

— Posso te fazer uma pergunta pessoal?

— Depois de tudo isso, acho que já perdemos o direito de fingir formalidade.

Ele sorriu, cansado, mas genuíno.

— Por que você nunca… — ele hesitou — por que intimidade nunca fez parte da sua vida?

— Você quer mesmo saber, ou está só curioso sobre a mulher que quase comprou por meio milhão de dólares?

— Quero saber sobre Maria. Não sobre a mulher do leilão.

Aquilo me pegou de um jeito inesperado.

— Meu pai foi embora quando eu tinha dez anos. Minha mãe trabalhou três empregos pra sustentar a gente até morrer de exaustão, literalmente, aos quarenta e três anos. Desde então, fui eu quem cuidou do Diego. Não sobrou tempo, nem confiança, pra deixar alguém entrar de verdade.

— Isso soa exaustivo.

— É a única vida que eu conheço.

Sebastian segurou minha mão sobre a mesa da cafeteria, um gesto simples que carregava mais peso do que qualquer discurso.

— Você merece descansar dessa exaustão algum dia, Maria.

— Isso soa como um convite.

— Talvez seja.

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