Chapter 4
A cirurgia do Diego foi marcada pra dali a cinco dias, com o valor já garantido pelo próprio Sebastian, independente da guerra legal que Victoria tinha prometido travar.
Foi nesse intervalo tenso que descobrimos o quão longe ela estava disposta a ir.
Recebi uma ligação de um número desconhecido numa tarde de quinta-feira, uma voz de mulher, calma e educada, se apresentando como advogada de Victoria Blackwood.
— Senhorita Santos, minha cliente gostaria de propor um acordo antes que a situação avance pros tribunais.
— Que tipo de acordo?
— Um milhão de dólares, em troca da assinatura de um documento renunciando a qualquer reivindicação futura de Diego sobre a herança Blackwood.
Fiquei em silêncio, processando a oferta.
— Diego já vai ter direito a vinte por cento garantido no testamento. Por que eu aceitaria um milhão em troca de abrir mão de algo que vale muito mais?
— Porque contestações legais podem levar anos, senhorita Santos. Anos em que seu irmão continuaria precisando de cuidados médicos contínuos, sem acesso ao dinheiro da herança, enquanto o caso se arrasta nos tribunais.
Aquilo carregava uma ameaça disfarçada de conselho prático, e eu reconheci o padrão imediatamente.
— Vou conversar com Sebastian sobre isso.
— Eu recomendaria não fazer isso, senhorita Santos. Essa oferta é… discreta, por assim dizer. Minha cliente prefere resolver isso sem o conhecimento do irmão.
Desliguei sem responder, o coração acelerado, e liguei imediatamente pra Sebastian.
Ele chegou ao meu apartamento em vinte minutos, o rosto sombrio depois de ouvir cada detalhe da ligação.
— Ela está tentando te comprar pelas costas, antes que eu descubra.
— Eu não vou aceitar, Sebastian. Isso é claramente uma tentativa de nos separar da parte que é do Diego por direito.
— Eu sei que você não vai aceitar. Mas isso mostra que Victoria está desesperada o suficiente pra agir sozinha, contornando os advogados oficiais da família.
— O que isso significa pra gente agora?
— Significa que precisamos formalizar tudo mais rápido do que eu planejava. Reconhecimento legal completo, antes que ela consiga inventar outra estratégia.
Nos dias seguintes, Sebastian trabalhou incansavelmente com uma equipe de advogados diferente da de Victoria, movendo processos, acelerando reconhecimentos, protegendo cada brecha legal que ela pudesse tentar explorar.
Na noite anterior à cirurgia do Diego, sentados no quarto do hospital enquanto meu irmão dormia tranquilo pela primeira vez em semanas, Sebastian finalmente relaxou os ombros tensos.
— Amanhã ele vai ficar bem — disse ele, mais afirmação do que pergunta.
— Os médicos estão confiantes.
— E depois de amanhã?
— O que tem depois de amanhã?
Sebastian se virou pra mim, a expressão mais vulnerável do que eu jamais tinha visto nele.
— Depois de amanhã, Diego vai precisar de meses de recuperação. Victoria provavelmente vai continuar tentando encontrar brechas. E eu… eu preciso saber se você quer que eu continue fazendo parte disso, ou se prefere que eu recue depois que tudo se resolver.
— Você está perguntando se eu quero você por perto só por causa do Diego?
— Estou perguntando se existe espaço, na sua vida exausta e cheia de responsabilidades, pra mais alguma coisa além de tudo isso. Pra mim, especificamente.
Segurei o rosto dele com as duas mãos, sentindo a barba por fazer sob os dedos.
— Sebastian, você entrou num leilão, ofereceu meio milhão de dólares, revelou um segredo de família que poderia ter destruído tudo, e ficou ao meu lado em cada noite dessas últimas semanas. Se isso não é espaço suficiente pra alguma coisa além de obrigação familiar, eu não sei o que seria.
Ele fechou os olhos por um segundo, como se estivesse absorvendo cada palavra.
— Eu tenho medo, Maria. De que, quando tudo isso se resolver, você associe cada lembrança minha a essa crise toda. Ao dinheiro, ao leilão, à herança.
— E eu tenho medo de que você associe cada lembrança minha a uma obrigação com seu pai morto, em vez de uma escolha genuína.
— Não é obrigação.
— Então prova.
Ele se inclinou devagar, dando tempo suficiente pra eu recuar se quisesse.
Eu não quis.
O beijo foi gentil, cuidadoso, carregando semanas de tensão acumulada e medo compartilhado.
