— Finge que é minha esposa. Dança comigo agora.

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Chapter 2

Dançamos devagar, e Giovanni conduzia como quem já tinha feito aquilo mil vezes, uma mão firme nas minhas costas, a outra segurando a minha com um cuidado que contrastava com a tensão inteira do salão.

— Todo mundo está olhando — sussurrei.

— Essa é a ideia.

— Você não vai me explicar quem você é de verdade?

— Giovanni Fierro. Já te disse.

— Isso não é resposta.

Ele girou a gente devagar, aproveitando o movimento pra olhar por cima do meu ombro.

— Minha família controla metade da importação de vinhos da costa leste. E, dependendo de quem você pergunta, algumas coisas que não aparecem em nenhuma nota fiscal.

Meu corpo travou.

— Você está me dizendo, no meio da pista de dança, que é ligado ao crime organizado?

— Estou te dizendo a verdade, já que você perguntou. A maioria das pessoas prefere não perguntar.

— E por que eu deveria confiar em você?

— Porque nas últimas duas horas, eu vi seu ex-marido te humilhar na frente de duzentas pessoas, e ninguém nessa festa levantou um dedo pra te defender. Eu levantei a mão. Isso já é mais do que a maioria fez por você hoje.

Não tive resposta pra aquilo, porque era simplesmente verdade.

A música terminou, e quando nos afastamos, uma mulher mais velha, de postura rígida e joias pesadas demais pro horário, se aproximou rapidamente.

— Giovanni. Quem é essa?

— Tia Renata, essa é Jessica. Minha esposa.

O rosto da mulher perdeu a cor por um segundo inteiro.

— Sua o quê?

— Casamos discretamente há duas semanas. Não queria fazer alarde antes do casamento da irmã dela.

Renata me olhou de cima a baixo, avaliando cada detalhe do meu vestido comprado em três prestações.

— Isso é… inesperado.

— A vida é cheia de surpresas — Giovanni respondeu, com um sorriso educado que não alcançava os olhos.

A morena elegante que eu tinha notado antes se aproximou também, os lábios apertados numa linha fina.

— Giovanni, você prometeu à minha família que consideraria seriamente…

— Eu nunca prometi nada, Isabella. Sua família e minha tia conversaram entre si. Eu não fiz parte dessa conversa.

Isabella me olhou com um desprezo que não se dava ao trabalho de esconder.

— E você — ela disse, se dirigindo a mim — apareceu do nada?

— Trabalho como enfermeira pediátrica. Não apareço do nada, apareço no plantão às sete da manhã, todo santo dia.

Giovanni segurou minha mão de novo, talvez pra me impedir de dizer mais alguma coisa, talvez porque gostasse do que tinha acabado de ouvir.

— Se me derem licença, minha esposa e eu precisamos conversar em particular.

Ele me guiou até uma varanda lateral do salão, longe dos olhares, o ar de outono cortando através do vestido fino que eu usava.

— Você acabou de me colocar no meio de uma guerra de família — falei, cruzando os braços.

— Eu sei. E vou entender perfeitamente se você quiser sair correndo agora e nunca mais olhar na minha cara.

— Por que eu faria isso?

Ele pareceu genuinamente surpreso com a pergunta.

— Porque a maioria das pessoas sensatas fugiria de um homem que acabou de admitir ligação com crime organizado.

— A maioria das pessoas sensatas também não ficaria casada oito anos com um homem que fingiu me amar só pra sumir três dias depois de descobrir que eu estava grávida. Acho que meu detector de “decisões sensatas” já não funciona direito há um tempo.

Alguma coisa suavizou na expressão dele.

— Isso foi ele? O homem de mais cedo?

— Tyler. Meu ex-marido. Pai da minha filha, tecnicamente, embora “pai” seja uma palavra generosa demais pro que ele faz.

— E a mulher grávida ao lado dele?

— Vanessa. Minha prima. Casaram um ano depois que ele me deixou.

Giovanni ficou em silêncio por um momento, olhando pro rio lá embaixo, as luzes da cidade refletidas na água escura.

— Eu tenho uma proposta pra você, Jessica. E quero que você saiba que pode recusar sem nenhuma consequência.

— Que tipo de proposta?

— Minha tia não vai desistir só porque apareceu uma “esposa” numa festa. Ela vai investigar, vai pressionar, vai tentar provar que isso é uma farsa. Eu preciso que essa farsa dure mais tempo do que uma noite.

— Quanto tempo?

— Alguns meses. O suficiente pra ela desistir do acordo com a família da Isabella.

— E o que eu ganho com isso, além de complicar ainda mais a minha vida?

Ele hesitou, e pela primeira vez desde que eu tinha conhecido ele, pareceu genuinamente inseguro.

— Eu pago suas contas. Todas elas. E garanto que sua filha tenha tudo que precisar, sem nenhuma condição anexada.

— Eu não preciso da caridade de um estranho, Giovanni.

— Não é caridade. É pagamento por um serviço, exatamente como qualquer outro acordo de negócios.

Fiquei olhando pro rio, pensando em Lily esperando em casa, no aluguel atrasado que eu ainda não tinha coragem de contar pra ninguém, nos plantões duplos que mal cobriam as contas do mês.

— Eu preciso pensar.

— Claro.

— E se eu disser sim, minha filha entra nisso também. Ela vem em primeiro lugar, sempre. Isso não é negociável.

Giovanni me olhou com uma seriedade que eu não esperava.

— Jessica, eu cresci numa família onde ninguém nunca colocou os filhos em primeiro lugar de verdade. Se você disser sim, prometo que isso muda com você.

Não sabia ainda se acreditava completamente nele.

Mas, pela primeira vez em muito tempo, também não sabia se tinha coragem de dizer não.

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