Há dois anos, eu disse ao meu melhor amigo que o amava — e ele me olhou como se eu tivesse entregado a ele algo que ele gostaria de poder devolver.

Written by

in

Chapter 3

O dia do casamento chegou cinza e quente, daquele jeito que promete chuva sem nunca cumprir.

Eu me arrumei no quarto das madrinhas, ouvindo Sophie rir nervosa enquanto a maquiadora prendia flores no cabelo dela.

Tentei não pensar na frase que Nathan tinha dito no corredor.

Não ficou claro coisa nenhuma, Emma. Eu menti pra você.

Ela martelava na minha cabeça desde a noite anterior.

A cerimônia foi ao ar livre, entre árvores decoradas com fitas brancas, e eu fiquei na primeira fileira do lado da noiva, tentando não olhar pro lado onde os padrinhos estavam.

Nathan usava terno cinza-escuro.

Ele parecia mais magro do que dois anos atrás, mais cansado também, como se tivesse carregado alguma coisa pesada esse tempo todo.

Durante os votos, ele olhou pra mim uma vez.

Só uma.

Mas foi o suficiente pra eu perder o fio do que a celebrante estava dizendo.

Na recepção, alguém — não lembro quem, talvez um tio da Sophie, meio alto por causa do vinho — bateu o microfone e anunciou:

— Agora, um brinde dos padrinhos e madrinhas mais próximos!

Empurraram Nathan e eu pra perto um do outro, taças na mão, sorrisos forçados pra foto.

— Vocês dois sempre foram inseparáveis — disse a mãe da Sophie, sorrindo, sem noção nenhuma do que estava dizendo. — Lembro de vocês dois sentados no chão da nossa sala há anos, estudando pra prova de química.

— Foi um bom período — Nathan respondeu, olhando pra mim de rabo de olho.

— Foi — falei, engolindo em seco.

A mãe da Sophie continuou, satisfeita com a lembrança:

— E quando o pai do Nathan teve aquele problema no coração, você foi a única pessoa que ele quis por perto, lembra, Nathan? Ficou dias na sala de espera do hospital com o menino.

O salão continuou girando ao redor, música, risadas, talheres batendo em taças.

Mas pra mim, tudo parou.

— Espera — falei, olhando pra Nathan. — Seu pai teve um problema no coração?

Ele ficou pálido.

— Emma…

— Quando?

A mãe da Sophie, ainda sem entender o estrago que tinha acabado de causar, respondeu no lugar dele, animada:

— Ah, faz uns dois anos! Bem na época da formatura de vocês, não foi? Uma fase terrível pra família Cole.

Dois anos.

A mesma época.

A mesma semana, talvez.

Olhei pra Nathan, e ele não conseguia mais me encarar.

— Foi por isso — sussurrei, mais pra mim mesma do que pra ele. — Foi por isso que você…

Ele pegou meu braço, gentil, e puxou pra um canto mais afastado da pista, longe dos ouvidos curiosos.

— Emma, deixa eu te explicar.

— Explicar o quê, Nathan? Que seu pai quase morreu no mesmo dia que eu disse que te amava e você nem me contou?

— Eu não conseguia contar pra ninguém naquele dia. Nem pra você.

— Eu não sou “ninguém”!

— Eu sei — ele disse, e os olhos dele estavam marejados agora. — Eu sei que não era. Era exatamente o contrário.

Meu peito apertava cada vez mais.

— Então por que mentiu?

Ele abriu a boca pra responder.

Mas naquele exato momento, o celular dele vibrou no bolso, e quando ele olhou a tela, o rosto dele mudou completamente.

— É o hospital — ele disse, baixinho, quase sem voz. — De novo.

E antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele já estava atravessando o salão em direção à saída, me deixando parada ali, sozinha, com metade de uma verdade que eu tinha esperado dois anos pra ouvir.

← Capítulo AnteriorPróximo Capítulo →

Lista de Capítulos