Chapter 2
Lena parou no meio do corredor da cozinha, o coração batendo tão forte que quase não conseguia ouvir os próprios pensamentos. Ellie não estava em lugar nenhum ali perto. Ela repassou mentalmente cada canto do depósito, cada prateleira, cada sombra, e a única possibilidade que restava era aquela que ela tinha jurado nunca considerar.
O escritório privado. No andar de baixo. O lugar proibido.
Ninguém entrava lá sem ser chamado. Ela sabia disso melhor do que ninguém, sabia o preço que se pagava por quebrar aquela regra. Mas o instinto de mãe falou mais alto do que qualquer medo, e antes que pudesse se conter, seus pés já a levavam para a escada estreita nos fundos do restaurante.
Cada degrau parecia mais pesado que o anterior. O barulho do salão foi ficando distante, abafado, até restar apenas o silêncio grosso daquele corredor onde ninguém do quadro normal de funcionários jamais pisava. Lena sentiu o sangue gelar quando, perto da porta de madeira escura no fim do corredor, ouviu um som que reconheceria em qualquer lugar do mundo.
O choro baixinho, entrecortado, de Ellie.
Ela avançou sem pensar duas vezes, esquecendo todas as regras, todos os avisos, toda a prudência que a tinha mantido viva naquele emprego por dez meses. Empurrou a porta com as mãos trêmulas.
E parou.
A cena diante dela não fazia sentido algum. Sentado atrás de uma mesa de mogno, num escritório de paredes escuras e luz baixa, estava o homem cujo nome ninguém pronunciava em voz alta — e nos braços dele, embrulhada num paletó preto caríssimo, estava Ellie, já quieta, olhando para o rosto dele com uma curiosidade tranquila que só bebês conseguem ter.
— Você deve ser a mãe — disse ele, sem levantar a voz, sem sequer parecer surpreso.
Lena não conseguiu responder de imediato. Sua garganta estava seca, as pernas fracas. Ela só conseguia olhar para a própria filha nos braços daquele homem, tentando entender como aquilo era possível.
— Ela estava chorando sozinha perto da escada — ele continuou, calmo, como se estivesse comentando o tempo. — Achei estranho um bebê estar num lugar desses. Mais estranho ainda foi perceber que ninguém veio atrás dela em quinze minutos.
— Quinze minutos — Lena sussurrou, sentindo o chão se abrir sob ela. Tinha sido mais tempo do que imaginava.
— Sente-se — ele disse, apontando para a cadeira do outro lado da mesa.
Não era um convite. Era uma ordem gentil, mas ainda assim uma ordem. Lena obedeceu, as pernas cedendo assim que tocou a cadeira, os olhos fixos na filha que continuava tranquila, alheia ao terror que consumia a mãe por dentro.
— Seu nome — ele perguntou.
— Lena. Lena Carter.
— Trabalha aqui há quanto tempo, Lena Carter?
— Dez meses.
Ele balançou a cabeça devagar, os olhos ainda em Ellie, que agora brincava distraída com um botão do paletó dele.
— E decidiu que hoje era um bom dia para trazer sua filha escondida dentro do meu restaurante.
Não era pergunta. Era constatação. Lena sentiu as lágrimas queimarem atrás dos olhos, mas se recusou a chorar ali, na frente daquele homem.
— Eu não tinha escolha — ela disse, a voz falhando levemente. — A babá cancelou de última hora. Não tinha com quem deixar ela. E se eu faltasse hoje, ia perder o emprego.
— Por que perderia o emprego por uma falta?
— Porque já recebi aviso — ela respondeu, baixando os olhos. — E eu não posso perder esse emprego. Não agora.
Ele ficou em silêncio por um instante que pareceu durar uma eternidade, os dedos batendo de leve na mesa, olhando para ela como quem monta um quebra-cabeça mentalmente.
— Onde está o pai da menina?
A pergunta atingiu Lena como um soco no estômago. Ela levantou os olhos, surpresa, e por um segundo hesitou antes de responder.
— Ele morreu. Há sete meses.
Alguma coisa mudou no rosto dele. Foi sutil, quase imperceptível, mas Lena notou — um piscar mais lento, uma tensão repentina na mandíbula.
— Como ele morreu?
— Um acidente de carro. Foi o que me disseram — ela respondeu, a voz baixa. — Nunca deram muitos detalhes. Só que ele saiu tarde do trabalho e não voltou.
O silêncio que se seguiu foi diferente de todos os outros daquela conversa. Mais pesado. Mais carregado.
— Qual era o nome dele? — ele perguntou, e pela primeira vez desde que Lena entrara naquele escritório, a voz dele soou diferente. Mais grave. Mais contida.
— Marcos. Marcos Carter.
Ele não disse nada por um longo momento. Apenas olhou para Ellie, depois para Lena, como se estivesse vendo alguma coisa que ela não conseguia enxergar.
— Volte para o salão — ele disse finalmente, entregando Ellie de volta para os braços da mãe com um cuidado que contrastava completamente com tudo que se dizia sobre ele. — Termine seu turno. Não fale sobre isso com ninguém.
Lena se levantou, ainda tremendo, apertando a filha contra o peito.
— O senhor não vai me demitir?
Ele a encarou por um longo segundo antes de responder, e havia algo na expressão dele que ela não conseguiu decifrar — não era raiva, não era piedade. Era algo mais antigo, mais pessoal.
— Ainda não decidi o que vou fazer — ele disse. — Mas antes disso, você e eu precisamos conversar sobre o seu marido. Porque, Lena Carter, esse nome não é estranho para mim.
