Chapter 4
O nome ecoou no escritório como uma sentença. Diego. O gerente que sorria para os clientes e tratava os funcionários com uma frieza calculada, o homem que Lena tinha aprendido a evitar sempre que possível, sem nunca imaginar que por trás daquela postura arrogante escondia-se algo tão sombrio.
— Tem certeza? — ela perguntou, ainda tentando processar tudo.
— Absoluta — ele respondeu, fechando a pasta com um gesto seco. — Diego vinha vendendo informações para um grupo rival há mais de um ano. Rotas de entrega, horários, nomes de motoristas. Quando a suspeita começou a recair sobre a operação, ele precisava de um bode expiatório. Marcos era perfeito: discreto, sem contatos poderosos para se defender, fácil de incriminar.
Lena sentiu o estômago revirar. Ela tinha trabalhado ao lado daquele homem por meses, sorrido para ele em corredores, aguentado suas críticas injustas sobre pequenos atrasos, sem imaginar que estava, na verdade, próxima do assassino do próprio marido.
— E agora? — ela perguntou, a voz quase um sussurro. — O que vai acontecer?
— Isso não é problema seu — ele respondeu, mas o tom não era frio, era protetor. — O que importa agora é que ele ainda não sabe que sabemos. E ainda não sabe que você esteve aqui essa noite.
Um som na porta fez os dois se virarem ao mesmo tempo. Diego estava parado no batente, um sorriso fino nos lábios, olhando de um para o outro com uma calma que gelava o sangue.
— Desculpe interromper — ele disse, a voz melosa demais para ser sincera. — Vim buscar as chaves do estoque. Não sabia que tínhamos… visita depois do expediente.
Lena sentiu o pânico subir pela garganta, mas o homem atrás da mesa não moveu um músculo.
— Lena estava aqui resolvendo um assunto pessoal — ele disse, a voz perfeitamente controlada, sem nenhum traço da tensão que segundos antes preenchia o ambiente. — Já estávamos terminando.
Diego olhou para Lena por um segundo a mais do que deveria, um olhar que ela só entenderia depois ser um aviso silencioso, uma ameaça disfarçada de curiosidade casual.
— Claro — ele disse, recuando. — Boa noite para os dois.
Assim que os passos de Diego desapareceram pelo corredor, o clima no escritório mudou completamente. O homem atrás da mesa se levantou, o rosto agora carregado de uma urgência que Lena não tinha visto antes.
— Ele suspeitou de alguma coisa — disse ele, mais para si mesmo do que para ela. — Precisamos agir mais rápido do que planejávamos.
— Agir como? — Lena perguntou, o medo tomando conta dela outra vez. — Ele pode fazer alguma coisa contra mim? Contra a Ellie?
— Não vou deixar isso acontecer — ele disse, e havia uma convicção tão sólida na voz dele que, pela primeira vez naquela noite inteira, Lena sentiu algo parecido com segurança. — Mas você precisa confiar em mim agora, mesmo sabendo tudo o que sabe sobre quem eu sou.
— Como posso confiar em alguém que faz parte do mundo que matou meu marido? — ela perguntou, a dor voltando à tona.
Ele baixou a cabeça por um instante, como se a pergunta o atingisse mais fundo do que ele esperava.
— Você não pode, não completamente. E eu não vou fingir que meu mundo é limpo — ele respondeu. — Mas existe uma diferença entre as pessoas que usam o poder para destruir e as que o usam para proteger o que resta de certo. Marcos escolheu confiar em mim uma vez. Estou pedindo que você faça o mesmo, só até isso terminar.
Naquela noite, Lena voltou para casa escoltada por dois homens que ele chamou de “seguranças”, posicionados discretamente do lado de fora do prédio onde ela morava com Ellie. Ela mal conseguiu dormir, os olhos fixos no teto, o corpo tenso a cada som da rua.
Dois dias depois, tudo mudou de vez.
Ela estava no trabalho quando ouviu o comoção na cozinha — vozes alteradas, passos apressados, o som inconfundível de algo grave acontecendo. Correu até lá e viu Diego sendo levado por dois homens que ela reconheceu como parte da segurança pessoal do chefe, o rosto dele branco de pânico, a arrogância de sempre completamente desmoronada.
— Vocês não têm prova nenhuma! — ele gritava, se debatendo. — Isso é loucura!
O homem atrás de toda aquela operação apareceu no corredor, calmo como sempre, segurando um tablet na mão.
— Tenho as transferências bancárias, os registros de mensagens, as gravações de call apagadas que você achou que ninguém encontraria — ele disse, a voz fria como aço. — E tenho a confissão que Renata, sua contata do outro lado, deu essa manhã em troca da própria proteção.
O rosto de Diego perdeu qualquer resquício de cor.
— Marcos Carter morreu porque você precisava de um culpado — o chefe continuou, aproximando-se devagar. — Ele tinha uma esposa. Uma filha de sete meses que nunca vai conhecer o pai. E você vai responder por isso, de um jeito ou de outro.
Lena, parada no fim do corredor, sentiu as pernas fraquejarem. Não era vingança que ela sentia naquele momento. Era um alívio doloroso, misturado com uma tristeza que talvez nunca fosse embora completamente.
