Chapter 3
Lena passou o resto do turno como um fantasma dentro do próprio corpo, as mãos executando tarefas automáticas enquanto a mente girava sem parar em torno das palavras dele. Esse nome não é estranho para mim. O que aquilo significava? Como o dono daquele restaurante, um homem que ela nunca tinha visto antes daquele dia, podia conhecer o nome do marido dela?
Ela tentou se lembrar de qualquer coisa que Marcos tivesse dito sobre o trabalho dele nos últimos meses de vida. Ele trabalhava como motorista particular para uma empresa de logística, ou pelo menos foi isso que ele sempre contou. Os horários estranhos, as viagens de última hora, o jeito como às vezes ele voltava tenso e não queria falar sobre o dia — ela tinha atribuído tudo isso ao estresse comum de quem trabalhava demais para sustentar a família.
Agora, cada lembrança parecia carregar um peso diferente.
Quando o turno terminou, passava das dez da noite. Lena já tinha levado Ellie para casa da vizinha, pedindo desculpas mil vezes por não ter avisado antes, inventando uma desculpa qualquer sobre uma emergência no trabalho. Voltou correndo para o restaurante, o coração disparado, porque ele tinha deixado um recado através do gerente: Volte depois do fechamento. Sozinha.
O salão vazio parecia outro lugar completamente diferente à noite, as luzes baixas, as cadeiras já viradas sobre as mesas. Lena encontrou o caminho até o escritório sem precisar perguntar a ninguém, como se seu corpo já soubesse o caminho de cor.
Ele estava sentado no mesmo lugar, mas agora havia uma pasta de papel pardo aberta sobre a mesa.
— Sente-se — ele disse novamente, e dessa vez a voz carregava um cansaço que ela não tinha notado antes.
— O senhor disse que conhecia o nome do meu marido — Lena falou assim que se sentou, incapaz de esperar mais. — Por favor. Eu preciso saber o que está acontecendo.
Ele deslizou a pasta pela mesa até ela. Lena abriu com as mãos trêmulas e viu uma fotografia que fez seu sangue gelar: Marcos, seu marido, de terno, ao lado de um carro preto que ela reconhecia vagamente — o mesmo tipo de carro que às vezes buscava ele em casa tarde da noite.
— Seu marido não trabalhava numa empresa de logística comum, Lena — ele disse, a voz baixa e firme. — Ele trabalhava para mim. Era um dos meus motoristas de confiança.
— Isso não é possível — ela sussurrou, mas mesmo enquanto dizia, sentia a verdade se encaixando dolorosamente com tudo que nunca fez sentido nos últimos meses do casamento deles.
— Ele nunca contou porque eu exijo isso de todos que trabalham perto de mim. Silêncio absoluto. Proteção da família através da ignorância — ele explicou, os olhos fixos nela. — Marcos era bom no que fazia. Confiável. Discreto. E leal, mais leal do que a maioria dos homens que já trabalharam para mim.
Lena sentiu as lágrimas escorrerem sem conseguir contê-las.
— Você está me dizendo que o acidente dele não foi um acidente.
O silêncio dele foi resposta suficiente.
— Há sete meses, descobrimos uma brecha na nossa operação — ele continuou, a voz mais dura agora. — Alguém estava passando informações para pessoas erradas. Marcos foi um dos poucos que sabiam certos detalhes que vazaram. Isso o colocou sob suspeita, mesmo sem provas contra ele.
— Ele não fez nada — Lena disse, a raiva finalmente cortando através do choque. — Marcos nunca trairia ninguém. Ele só queria sustentar a família.
— Eu sei disso agora — ele respondeu, e havia algo parecido com remorso na voz dele. — Descobrimos, tarde demais, que o verdadeiro informante era outra pessoa. Alguém que orquestrou tudo para que a suspeita caísse sobre Marcos. E antes que pudéssemos corrigir o erro, ele já tinha sido… removido pelas pessoas que pensavam estar se protegendo.
Lena colocou as mãos sobre o rosto, o corpo inteiro tremendo. Sete meses ela tinha vivido acreditando numa mentira, chorando um acidente que nunca existiu, enquanto o verdadeiro assassino do marido dela ainda andava livre por aí.
— Por que está me contando isso agora? — ela perguntou, erguendo os olhos vermelhos para encará-lo. — Por que não simplesmente me demitiu hoje e me deixou ir embora sem saber de nada?
Ele se levantou da cadeira, caminhando até a janela que dava para o beco atrás do restaurante, as mãos entrelaçadas atrás das costas.
— Porque hoje, quando peguei sua filha chorando naquele corredor, olhei para o rosto dela e vi o rosto de Marcos — ele disse, a voz rouca. — E percebi que a viúva e a filha de um dos homens mais leais que já tive, estavam vivendo com medo, sem dinheiro, escondendo bebês em depósitos para não perder um emprego de garçonete. Isso é uma vergonha que recai sobre mim, não sobre você.
— Eu não quero pena — Lena disse, a voz firme apesar das lágrimas.
— Não é pena — ele respondeu, virando-se para encará-la. — É dívida. E eu sempre pago minhas dívidas, Lena Carter. Mas antes de resolver isso, existe uma pessoa que precisa responder pelo que fez ao seu marido. E receio que essa pessoa ainda trabalhe muito perto de você.
Lena sentiu um arrepio percorrer sua espinha.
— Do que o senhor está falando?
Ele pegou outra fotografia da pasta e a colocou diante dela. Lena reconheceu o rosto imediatamente — era o gerente do turno da noite, o homem que sempre parecia observá-la de longe, o homem que tinha lhe entregado o aviso de advertência na semana anterior sem motivo aparente.
— Diego trabalha para mim há três anos — ele disse. — E há três meses, começamos a rastrear certas transações que apontam diretamente para ele.
