Chapter 2
O nome no envelope era “Família Castellano”.
Minhas mãos tremiam quando finalmente ergui os olhos para Sal.
— Isso é… uma piada?
— Eu queria que fosse.
Ele se sentou na beirada do sofá, ainda de smoking, o sobretudo escorrendo água no meu tapete surrado, mas nenhum de nós dois se importava com isso agora.
— Elena, você trabalha comigo há dois anos. Sabe que administro “investimentos imobiliários”. Sabe que recebo ligações estranhas de madrugada. Sabe que homens de terno preto às vezes esperam no meu carro.
— Eu sempre pensei que fosse só… discrição. Segurança.
— É mais do que isso.
Ele respirou fundo.
— Meu pai era Antonio Rizzo. Você deve ter ouvido esse nome nas notícias, há anos, antes de vir trabalhar comigo.
O sangue gelou nas minhas veias.
— O chefe da máfia de Nova York que foi preso…
— E que morreu na prisão há três anos, deixando tudo para mim. A “empresa”, os contatos, as dívidas, os inimigos.
— Sal…
— Eu tentei limpar tudo, Elena. Juro que tentei. Fechei metade dos negócios sujos, transformei o resto em coisas legítimas. Mas não dá pra apagar um sobrenome. Não dá pra fazer os Castellano esquecerem que meu pai tirou o irmão deles do caminho há vinte anos.
Abri o envelope, as mãos ainda tremendo.
Dentro, fotografias. Eu, saindo do escritório. Eu, no mercado perto de casa. Eu, entrando neste exato prédio.
Alguém estava me vigiando.
— Sal, por que eu?
Ele hesitou, os olhos fixos nos meus.
— Porque os Castellano descobriram que você significa alguma coisa para mim. E, nesse mundo, isso te transforma em alvo.
— Eu só sou sua assistente!
— Você é muito mais que isso, e nós dois sabemos.
O silêncio que se seguiu dizia mais do que qualquer confissão de amor poderia dizer.
— Por isso vim aqui antes da meia-noite — continuou ele. — Porque se alguma coisa acontecer comigo essa noite, ou nos próximos dias, eu precisava que você soubesse a verdade antes de ouvir dos outros. E precisava te avisar: a partir de agora, você não está mais segura sozinha.
— Você está me dizendo que corro perigo por sua causa.
— Estou dizendo que já corre. Só não sabia.
Levantei-me, andando de um lado para o outro do pequeno apartamento, tentando processar tudo.
— Isso é loucura, Sal. Ontem eu estava organizando sua agenda de reuniões. Hoje você está me dizendo que sou “alvo” de uma família da máfia.
— Eu sei como isso soa.
— Soa como um pesadelo.
Ele se levantou, ficando diante de mim, mais perto do que qualquer chefe deveria estar da assistente.
— Elena, eu devia ter mantido distância. Devia ter te mandado embora há meses, quando percebi o que estava sentindo. Mas sou egoísta. Não consegui.
— O que você está sentindo?
Ele levou a mão ao meu rosto, com uma delicadeza que contrastava completamente com tudo o que eu tinha acabado de descobrir sobre ele.
— Estou apaixonado por você, Elena Morrison. Há mais tempo do que deveria admitir.
Meu coração disparou, dividido entre o medo e algo que eu vinha sufocando havia dois anos.
Foi então que um barulho vindo da rua nos fez congelar.
Passos apressados. Vozes baixas, masculinas.
Sal levou o dedo aos lábios, os olhos repentinamente frios e alertas — o olhar de um homem que sabia exatamente o que aquele som significava.
— Apague as luzes — sussurrou ele. — Agora.
