Chapter 4
A casa segura ficava a quarenta minutos da cidade, escondida atrás de uma fileira de árvores, sem placa, sem nome na caixa de correio.
Sal estacionou o carro dentro de uma garagem discreta e desligou o motor, mas nenhum dos dois se moveu por um instante.
— Você está bem? — perguntou ele, finalmente, a voz mais suave.
— Não. Não estou bem, Sal. Alguém invadiu minha casa e quebrou a única coisa viva que eu tinha por perto.
Ele riu, sem humor de verdade, apenas cansaço.
— Eu prometo que vou comprar cem suculentas novas pra você, se sairmos dessa.
Entramos na casa, simples por fora, mas equipada por dentro — câmeras nos cantos, um cofre embutido na parede, uma sala com mapas e fotografias que Sal rapidamente cobriu com um pano antes que eu pudesse olhar com atenção.
— O que é tudo isso? — perguntei.
— Informações que uso para me proteger. E, agora, para proteger você.
Ele serviu dois copos de uísque, entregando um a mim, que recusei com um gesto de cabeça.
— Prefiro manter a cabeça no lugar, obrigada.
Ele sorriu de leve, o primeiro sorriso genuíno desde que tínhamos saído do meu apartamento.
— Justo.
Sentamos frente a frente numa mesa de madeira simples, o silêncio pesado entre nós.
— Preciso te contar o resto — disse ele, por fim. — Os Castellano não querem só se vingar do meu pai. Eles querem o território que meu pai tirou deles décadas atrás. E acham que, se me atingirem através de você, eu vou entregar tudo sem lutar.
— E você vai?
Ele hesitou.
— Eu consideraria qualquer coisa para te manter viva.
— Sal, isso não pode ser resolvido assim. Entregando território, fazendo acordo com gente perigosa…
— Então o que você sugere, Elena? Que chamemos a polícia? Eles têm gente dentro da própria delegacia.
Fiquei em silêncio, sentindo o peso da situação me esmagar aos poucos.
— Existe outra opção — disse ele, depois de um momento. — Meu tio, Vincent, era sócio do meu pai antes de se afastar completamente dos negócios há dez anos. Ele tem contatos, influência, e principalmente: ele nunca gostou dos Castellano. Se alguém pode nos ajudar a negociar uma trégua real, é ele.
— E por que você não o chamou antes?
Sal baixou os olhos, hesitante.
— Porque, para chamá-lo, preciso admitir pra ele — e pra mim mesmo — que não consigo resolver isso sozinho.
Toquei a mão dele pela primeira vez naquela noite, um gesto pequeno, mas que pareceu significar mais do que qualquer discurso.
— Não tem problema precisar de ajuda, Sal.
Ele olhou para nossas mãos entrelaçadas, depois para mim, algo suavizando em sua expressão tensa.
— Ninguém nunca me disse isso.
Ele pegou o telefone e discou um número, a voz mudando para um tom mais formal, mais urgente, enquanto explicava a situação ao tio.
Do outro lado, ouvi apenas fragmentos — um homem mais velho, a voz grave, perguntas rápidas, e por fim um silêncio significativo antes de Sal desligar.
— E então? — perguntei, ansiosa.
— Ele vai nos ajudar. Mas quer se encontrar pessoalmente, amanhã ao meio-dia, num lugar neutro. E ele fez questão de dizer uma coisa antes de desligar.
— O quê?
— Que os Castellano só recuam diante de força, nunca diante de medo. E que, se eu realmente te amo, é melhor eu decidir logo de que lado da história eu quero estar.
O silêncio que se seguiu carregava o peso de uma escolha que Sal sabia, no fundo, que já tinha feito.
— Eu escolhi o lado onde você está, Elena. Há muito tempo.
Lá fora, o amanhecer começava a colorir o céu, e pela primeira vez desde a meia-noite, senti uma centelha frágil de esperança em meio a todo aquele medo.
