Chapter 5
O encontro com Vincent Rizzo aconteceu num restaurante italiano discreto, fechado especialmente para nós àquela hora do dia.
Vincent era um homem de uns sessenta anos, olhar afiado, postura de quem tinha visto e sobrevivido a mais coisas do que qualquer um gostaria de imaginar.
— Então essa é a garota — disse ele, estudando-me com atenção antes mesmo de cumprimentar Sal direito.
— Elena Morrison — apresentei-me, tentando manter a voz firme.
— Sei quem você é. Passei a noite toda descobrindo tudo sobre você, moça. É limpa. Sem ligação nenhuma com nenhuma família. Isso, pelo menos, simplifica as coisas.
Sentamos à mesa, e Vincent foi direto ao ponto, sem rodeios.
— Falei com Marco Castellano essa manhã.
O corpo de Sal enrijeceu.
— E?
— Ele concorda em se encontrar. Mas quer uma coisa em troca só para sentar à mesa: quer o depósito da Décima Rua. O que restou do antigo território que seu pai tomou deles.
— Aquele depósito não vale nada além de história — disse Sal.
— Para você, não. Para o orgulho da família Castellano, vale tudo.
Sal ficou em silêncio por um longo momento, os dedos batendo devagar na mesa.
— Se eu entregar o depósito…
— Você encerra vinte anos de rancor com um gesto só — completou Vincent. — E prova que não é o seu pai. Que não veio para continuar a guerra dele.
— E ela? — perguntou Sal, olhando para mim. — Isso a mantém segura?
Vincent assentiu, devagar.
— Se Marco aceitar o acordo, sim. A família tem código, por pior que pareça de fora. Uma vez fechado o acordo, ninguém mais toca nela.
Olhei para Sal, meu coração apertado.
— Sal, faça o que precisar fazer.
— Elena, isso significa abrir mão de parte da herança do meu pai. Da última coisa que me liga a ele.
— Seu pai te deixou uma guerra, Sal. Não um legado. Talvez seja hora de escolher o que você realmente quer deixar para trás.
Ele me olhou por um longo momento, algo se resolvendo atrás de seus olhos.
— Feche o acordo, Vincent. O depósito é deles.
Vincent sorriu, pela primeira vez, um sorriso quase orgulhoso.
— Seu pai nunca teria feito isso.
— Eu sei — disse Sal. — Por isso estou fazendo.
Duas semanas depois, o acordo formal foi assinado, testemunhado por representantes de ambas as famílias num escritório de advocacia neutro, sem armas, sem ameaças — apenas papéis e assinaturas encerrando duas décadas de rancor.
Marco Castellano, ao apertar a mão de Sal ao final da reunião, disse apenas:
— Espero nunca mais precisar ouvir o sobrenome Rizzo de novo, num sentido bom ou ruim.
— Combinado — respondeu Sal.
Naquela noite, de volta ao meu apartamento — reformado, com um Steve número dois orgulhosamente vivo na janela — Sal apareceu à porta novamente, dessa vez sem terno, sem envelope, sem perigo pairando sobre nós.
Apenas ele, uma pizza e duas taças de vinho.
— Sem surpresas dessa vez? — perguntei, sorrindo, abrindo a porta.
— Prometo. Só jantar. E talvez… uma conversa sobre o que vem depois de tudo isso.
Sentamos no mesmo sofá surrado de sempre, mas dessa vez sem medo pairando no ar, sem carros suspeitos lá fora, sem envelopes escondendo segredos perigosos.
— Você realmente abriu mão de tudo aquilo por mim — falei, ainda incrédula.
— Eu abri mão de uma guerra que nunca foi minha, para começar uma vida que eu escolho de verdade. E escolho você, Elena Morrison. Sem segredos, sem medo, sem olhar por cima do ombro.
Ele me beijou, ali, no mesmo sofá onde tudo tinha começado dez minutos antes da meia-noite — só que dessa vez, não havia contagem regressiva, não havia perigo, apenas o começo silencioso e certo de algo real.
E você, já teve que escolher entre o passado que te formou e o futuro que realmente deseja? O que te fez decidir?
