Chapter 2
A mansão dos Cárdenas parecia maior por dentro do que por fora.
Elena caminhava dois passos atrás da senhora Herrera, tentando memorizar cada corredor, cada porta, cada regra que ainda não tinha sido dita.
— Você dorme no quarto de serviço, ao lado da cozinha — disse Herrera, sem olhar para trás. — O uniforme fica passado até as sete da manhã. Café pronto às seis e meia. O senhor Cárdenas não gosta de esperar.
— Sim, senhora.
— E não fale com ele, a menos que ele fale primeiro.
Elena engoliu em seco.
— Entendi.
Na cozinha, uma mulher mais velha, de avental manchado de farinha, ergueu os olhos e sorriu de leve.
— Você é a nova?
— Sou. Elena.
— Rosa — disse a mulher, secando as mãos no avental. — Cozinho aqui há doze anos. Já vi gente entrar e sair dessa casa como quem troca de roupa.
— Onze em oito meses, foi o que me disseram.
Rosa balançou a cabeça, séria.
— Não é a casa que espanta as pessoas, menina. É ele.
— O senhor Cárdenas?
Rosa olhou para os lados antes de responder, baixinho:
— Ele não bate, não grita, não ofende. É pior. Ele olha através de você, como se você nem estivesse ali. Como se ninguém mais existisse além da dor dele.
Elena guardou aquilo em algum lugar da memória.
Naquela tarde, ela viu Rodrigo Cárdenas pela primeira vez de perto.
Ele atravessou o corredor principal com um casaco escuro sobre os ombros, o celular colado ao ouvido, a voz baixa e cortante:
— Eu não me importo com o prazo. Resolva.
Ele nem olhou para ela.
Elena baixou os olhos, como Herrera tinha instruído, e continuou limpando o aparador de mármore.
Mas, pelo canto do olho, reparou em algo estranho.
Perto da escada, havia uma pequena estante com fotos.
Fotos de negócios, prêmios, capas de revista.
Nenhuma foto de família.
Nenhuma criança. Nenhuma esposa.
Como se aquela parte da vida dele tivesse sido apagada com uma borracha.
À noite, depois que a casa esfriou e as luzes do andar de cima se apagaram uma a uma, Elena subiu com uma toalha limpa para o closet do corredor.
Foi então que passou pela porta trancada.
Parou.
A madeira era escura, antiga, diferente do resto da casa, que era toda vidro e aço.
Havia um cheiro fraco de poeira saindo por baixo da fresta.
Ela encostou a mão na maçaneta, sem girar, só sentindo o metal frio.
— Isso não é da sua conta.
A voz veio de trás dela, grave, sem aviso.
Elena se virou tão rápido que quase deixou cair a toalha.
Rodrigo Cárdenas estava parado no fim do corredor, os braços cruzados, o rosto na penumbra.
— Desculpe, senhor. Eu só estava passando.
— As pessoas sempre “só estão passando” quando param na frente dessa porta.
— Eu não toquei em nada.
— Ainda não.
O silêncio entre eles durou mais do que deveria.
— Qual é o seu nome? — ele perguntou, por fim.
— Elena, senhor. Elena Salgado.
Ele a observou como quem examina um contrato, procurando a letra miúda.
— Onze pessoas antes de você entraram nessa casa achando que iam durar. Nenhuma durou.
— Eu não vim para durar, senhor. Vim para trabalhar.
Alguma coisa mudou no rosto dele — não um sorriso, mas quase.
— Veremos — disse ele, e desapareceu pelo corredor escuro, sem olhar para trás.
Elena ficou parada, o coração batendo forte, sem saber se tinha acabado de cometer um erro ou de passar em algum tipo de teste.
Naquela noite, deitada no quarto pequeno ao lado da cozinha, ela ligou para casa.
— Vó, como você está?
A voz de Carmen veio fraca, mas firme.
— Estou bem, filha. Tomei o remédio certinho. E você, como foi o primeiro dia?
Elena hesitou.
— Estranho. Essa casa guarda alguma coisa, vó. Dá pra sentir.
— Toda casa grande guarda alguma coisa — respondeu Carmen. — A pergunta é se você vai ficar tempo suficiente pra descobrir o quê.
Elena olhou para o teto, pensando na porta trancada, no cheiro de poeira, no olhar vazio de Rodrigo Cárdenas.
— Acho que vou ficar, vó.
— Então cuide do seu coração — disse a avó. — Casas tristes engolem gente com coração mole.
Elena desligou o telefone e ficou olhando para a escuridão, sem imaginar o quanto aquela frase se tornaria verdadeira.
Dias depois, Rodrigo chamou a senhora Herrera ao escritório.
— A nova. Quanto tempo você dá a ela?
Herrera pensou por um instante.
— Duas semanas, no máximo.
— Coloque-a à prova. Do jeito que sempre fazemos.
Herrera ergueu uma sobrancelha, mas não questionou.
— Sim, senhor.
Ninguém, naquela casa, sabia exatamente o que aquele “teste” envolvia.
Só sabiam que, até então, ninguém tinha sobrevivido a ele com o emprego — ou com a dignidade — intactos.
