Chapter 4
O plano era simples, como sempre tinha sido com as outras onze.
Rodrigo diria a Herrera que estava indisposto e passaria a tarde deitado no sofá do escritório, fingindo dormir profundamente, com a porta entreaberta e o cofre da gaveta, por trás, propositalmente destrancado, cheio de documentos e um envelope com dinheiro.
Era assim que ele descobria quem realmente eram as pessoas que contratava.
Uma tinha tentado abrir o cofre.
Duas tinham revistado gavetas “por curiosidade”.
Uma tinha simplesmente ido embora, assustada com o silêncio da casa.
Ele já sabia, de cor, como aquilo terminava.
Na tarde marcada, Herrera bateu à porta do quarto de serviço.
— Elena, o senhor Cárdenas não está bem. Ele quer que alguém leve chá e cubra as janelas do escritório, está muito claro para a dor de cabeça dele. Eu tenho que sair para resolver uma entrega. Cuide disso.
— Sim, senhora.
Elena preparou o chá com cuidado, como a avó tinha ensinado — camomila com um toque de mel, nunca açúcar, para quem sofre de enxaqueca.
Ao entrar no escritório, encontrou Rodrigo deitado no sofá de couro, os olhos fechados, a respiração pausada, um braço caído para o lado.
Ela se aproximou devagar, sem fazer barulho.
— Senhor Cárdenas?
Nenhuma resposta.
Ela colocou a bandeja na mesinha ao lado e foi até a janela, fechando as cortinas pesadas, deixando o escritório na penumbra.
Foi então que reparou na gaveta entreaberta.
Papéis. Um envelope grosso.
Qualquer outra pessoa teria pelo menos espiado.
Elena, ao invés disso, fechou a gaveta com cuidado, sem tocar em nada.
Depois, pegou um cobertor dobrado no canto da sala e o colocou sobre o corpo de Rodrigo, ajeitando-o nos ombros como se ele fosse uma criança e não o homem mais temido de Monterrey.
— Descanse, senhor — sussurrou ela, sem saber que ele estava acordado, sentindo cada movimento.
Rodrigo manteve os olhos fechados, o coração batendo mais forte do que gostaria de admitir.
Ela não tocou no dinheiro.
Não abriu os papéis.
Não sussurrou para ninguém, não tirou fotos com o celular, não tentou nada.
Ela simplesmente cuidou dele.
Elena ficou parada por um instante, olhando o rosto dele relaxado pela primeira vez desde que ela tinha chegado àquela casa — sem a dureza costumeira, sem a couraça.
Por um segundo, ele parecia apenas… um homem cansado. Um homem que tinha perdido tudo e não sabia mais como viver com o vazio.
Ela suspirou baixinho e saiu na ponta dos pés, fechando a porta sem barulho.
Assim que os passos dela desapareceram no corredor, Rodrigo abriu os olhos.
Ficou olhando para o teto por um longo tempo, o cobertor ainda sobre os ombros.
Nenhuma das outras onze tinha feito aquilo.
Nenhuma tinha se importado o suficiente para cobri-lo com um cobertor, ao invés de esvaziar suas gavetas.
Naquela noite, ele não conseguiu dormir, mas pela primeira vez em muito tempo, não era por causa da dor.
Era por causa de uma pergunta que insistia em voltar: quem era, de fato, Elena Salgado?
No dia seguinte, ele a chamou ao escritório, dessa vez de verdade, os olhos abertos, o rosto sério.
— Sente-se.
Elena obedeceu, tensa.
— Eu fiz uma coisa ontem — disse ele, sem rodeios. — Fingi estar dormindo.
O rosto de Elena mudou, entendendo aos poucos.
— Era um teste?
— Era. E você é a primeira, em três anos, que não tentou tirar vantagem disso.
Ela ficou em silêncio, sem saber se deveria se sentir ofendida ou aliviada.
— Eu não vim aqui para roubar nada, senhor. Vim para trabalhar e cuidar da minha avó.
— Eu sei — disse ele. — Por isso quero saber mais sobre você.
— Não há muito o que saber. Larguei a faculdade de enfermagem para cuidar dela. Moramos sozinhas. O dinheiro que ganho aqui é o que mantém o remédio dela em dia.
Rodrigo a observou como se a estivesse vendo pela primeira vez, de verdade.
— Sua avó tem sorte de ter você.
— Às vezes acho que é o contrário.
Um silêncio confortável se instalou entre os dois, algo raro naquela casa.
— Obrigado — disse ele, por fim. — Pelo cobertor.
Elena sorriu de leve, surpresa por ele ter percebido.
— De nada, senhor.
Ele hesitou antes de continuar.
— Elena… existe uma coisa que eu preciso te contar. Sobre a porta trancada. Sobre por que ninguém pode entrar lá.
O coração dela acelerou.
— Só se o senhor quiser me contar.
— Acho que, pela primeira vez em três anos, eu quero.
Foi naquele instante, com a chuva batendo de leve na janela e o cheiro de chá esfriando entre eles, que Rodrigo Cárdenas começou a contar a verdade que havia trancado junto com aquele quarto — a verdade que estava prestes a mudar tudo entre eles.
