Chapter 3
Passaram-se duas semanas, e Elena continuava.
Aprendeu os horários da casa, os silêncios de Rodrigo, os dias em que Rosa cozinhava mais para disfarçar a tristeza, os dias em que a senhora Herrera parecia mais dura só porque tinha dormido mal.
Elena também aprendeu algo mais importante: onde estava o limite entre ser útil e ser invisível.
E nunca cruzou a linha da porta trancada de novo.
Mas isso não significava que ela tinha parado de pensar nela.
Numa tarde de chuva, enquanto organizava a lavanderia, Elena encontrou, esquecido atrás de uma prateleira, um pequeno sapato de bebê.
Rosa apareceu na porta bem na hora em que Elena segurava o sapatinho na mão.
— Guarda isso — disse Rosa, rápido, quase sem voz.
— Rosa, de quem é?
Rosa fechou a porta da lavanderia atrás de si.
— Da filha dele. Da Sofia.
O coração de Elena apertou.
— Ele tem uma filha?
— Tinha — corrigiu Rosa, os olhos marejados. — Um acidente de carro. A esposa dele, Valentina, estava dirigindo. A menina tinha só dois aninhos.
— Meu Deus…
— Ele não fala sobre isso. Ninguém fala. Ele mandou tirar todas as fotos da casa, trancou o quarto delas e proibiu qualquer um de mencionar os nomes das duas.
Elena olhou para o sapatinho na palma da mão, sentindo o peso de tudo aquilo.
— E a esposa? Ela também…
Rosa balançou a cabeça, os lábios trêmulos.
— Ela sobreviveu ao acidente. Mas nunca se perdoou. Um ano depois, tomou os remédios errados. De propósito ou não, ninguém nunca soube ao certo.
O silêncio na lavanderia ficou pesado, quase sólido.
— Guarda esse sapato de volta exatamente onde estava — disse Rosa, secando os olhos com a manga. — E finge que essa conversa nunca aconteceu.
Naquela noite, Elena não conseguiu dormir.
Ficou pensando no homem frio que cruzava os corredores como um fantasma, no jeito como ele nunca olhava para as fotos vazias na estante, no motivo pelo qual aquela porta permanecia trancada havia três anos.
Não era raiva o que ela via nos olhos dele.
Era culpa.
Era a culpa de um homem que, de alguma forma, achava que devia ter impedido tudo — mesmo sem ter estado no carro naquele dia.
Dias depois, Elena estava sozinha, limpando o corredor perto do escritório, quando ouviu vozes alteradas vindas de dentro.
— O senhor precisa assinar isso até sexta — dizia um homem, provavelmente um advogado.
— Eu disse que vou assinar quando eu quiser.
— Rodrigo, já faz três anos. Você não pode continuar administrando a empresa como se estivesse em piloto automático. Seus investidores estão nervosos.
— Meus investidores que se preocupem com os números. Minha vida não é da conta de ninguém.
Uma pausa.
— Você não está vivendo, Rodrigo. Está sobrevivendo. E isso não é a mesma coisa.
A porta se abriu com força, e o advogado saiu, o rosto tenso, quase esbarrando em Elena no corredor.
— Desculpe — murmurou ela, dando um passo para o lado.
Ele nem a notou, saindo apressado.
Elena olhou para a porta entreaberta do escritório e viu Rodrigo sentado atrás da mesa, o rosto escondido entre as mãos.
Por um segundo, ela quase entrou. Quase disse alguma coisa.
Mas se conteve, lembrando das regras, lembrando do seu lugar naquela casa.
Só que, ao se virar para ir embora, ouviu a voz dele, rouca:
— Fica.
Ela parou.
— Senhor?
— Não vá embora. Só… fica aí um minuto.
Elena voltou, parada na porta, sem saber o que fazer com as mãos.
— As pessoas sempre acham que eu preciso de silêncio — disse ele, ainda sem levantar o rosto. — Mas o silêncio é o que mais me mata.
— Sinto muito, senhor. Eu não sabia sobre… sua filha. Sua esposa.
Ele finalmente ergueu os olhos, surpreso, talvez magoado.
— Quem te contou?
— Ninguém, senhor. Encontrei um sapatinho na lavanderia. Rosa só confirmou o que eu já tinha imaginado.
Ele ficou em silêncio por um longo momento.
— Aquele sapato deveria ter sido jogado fora há muito tempo.
— Por que não foi?
A pergunta escapou antes que ela pudesse se conter.
Rodrigo a encarou, algo entre irritação e surpresa.
— Você faz perguntas demais para alguém que trabalha aqui há duas semanas.
— Desculpe. Não é da minha conta.
— Não — disse ele, baixinho. — Não é.
Mas ele não pediu para ela sair.
Ficaram os dois em silêncio, um silêncio diferente do que Rosa tinha descrito — não vazio, mas cheio de coisas não ditas.
— Pode ir, Elena — disse ele, por fim.
Foi a primeira vez que ele disse o nome dela.
Naquela noite, Rodrigo ficou sentado sozinho no escritório escuro, girando um copo de uísque que nunca bebia de verdade.
E, pela primeira vez em três anos, pensou em alguém além de Valentina e Sofia.
Pensou numa jovem de mãos calejadas de trabalho e olhos que não desviavam do dele por medo.
Foi então que decidiu: era hora do teste.
Se ela era diferente das outras, provaria isso sem saber que estava sendo observada.
E se não fosse, ao menos ele teria certeza — mais uma vez — de que estava destinado a ficar sozinho.
