Chapter 1
Por três anos, Arya Valentino acreditou que não passava de um enfeite dentro da cobertura luxuosa do marido — uma esposa escolhida pra quitar uma dívida e depois silenciosamente esquecida.
O temido chefe da máfia nunca a tocava, mal falava com ela, e mantinha o próprio coração trancado atrás de portas fechadas.
Mas numa noite chuvosa, um vaso quebrado, algumas gotas de sangue e um único toque inesperado expuseram uma verdade poderosa o suficiente pra mudar tudo o que ela achava saber sobre o próprio casamento.
A chuva batia forte contra as janelas do chão ao teto da cobertura em Manhattan, transformando as luzes da cidade em fitas borradas de dourado e vermelho.
De pé, descalça, na cozinha silenciosa, Arya envolvia as duas mãos ao redor de uma xícara de chá de camomila, observando milhares de estranhos lá embaixo voltando pra casas aquecidas e famílias comuns.
Ela invejava eles.
A cobertura estava cheia de obras de arte inestimáveis, taças de cristal, talheres importados, e porcelanas elegantes que ela nunca tinha escolhido sozinha.
Todo cômodo parecia perfeito.
Todo cômodo parecia vazio.
Três anos tinham se passado desde que ela se casara com Marcus Valentino, um dos chefes do crime mais poderosos e temidos de Nova York.
Três anos de silêncio.
Três anos de distância.
Três anos se perguntando se ela alguma vez tinha realmente sido uma esposa de verdade.
O casamento tinha sido arranjado depois que as dívidas de jogo do pai dela saíram completamente de controle.
Homens de terno caro tinham enchido o apartamento minúsculo deles enquanto a mãe chorava atrás da porta trancada do banheiro.
Arya ainda se lembrava de apertar a mão trêmula da irmã mais nova embaixo da mesa da cozinha, enquanto estranhos discutiam o futuro dela como se fosse mais uma conta em atraso.
Então Marcus Valentino entrou na vida deles.
Com apenas trinta anos, ele carregava a confiança tranquila de um homem que ninguém ousava desafiar.
O terno preto sob medida, os olhos cinzentos e frios, a expressão impossível de ler — tudo isso comandava o ambiente sem uma única vez erguer a voz.
Ele mal olhou pra Arya.
Um breve olhar.
Só o suficiente pra reconhecer que ela existia, antes de voltar toda a atenção pro pai dela.
Dívida.
Proteção.
Casamento.
A cerimônia no fórum aconteceu apenas duas semanas depois.
Sem flores.
Sem música.
Sem celebração.
Apenas luzes fluorescentes, documentos assinados, e um breve beijo enquanto Marcus deslizava uma aliança de platina no dedo dela.
Foi a última vez que ele a tocou.
Agora, anos depois, Arya se encolhia perto da janela da sala, puxando um cardigã grande demais ao redor do próprio corpo magro.
Apesar de todo o luxo ao redor, a solidão tinha se instalado tão profundamente que nem a caxemira mais cara conseguia afastar o frio.
Foi então que as portas do elevador se abriram.
O coração dela disparou.
Era apenas uma e meia da manhã — cedo demais pros padrões de Marcus.
Ela ouviu a voz calma e perigosa dele antes de vê-lo. Italiano se misturava naturalmente com inglês enquanto ele falava com vários homens logo atrás.
Os passos deles ecoavam pelo corredor de mármore, junto com o som inconfundível de armas escondidas por baixo de casacos encharcados de chuva.
Sempre que Marcus tratava de negócios, Arya desaparecia em silêncio.
Essa era a regra não dita.
Mas alguma coisa no tom de voz dele a impediu de sair dali.
— Não me importa a desculpa que ele deu — disse Marcus, com a voz firme. — Ele falhou na missão. Agora temos um problema sério.
A curiosidade puxou Arya um pouco mais pra perto.
O cotovelo dela esbarrou sem querer no vaso de porcelana decorativo perto da janela.
Ele balançou uma vez.
Ela tentou segurar.
Tarde demais.
O vaso se espatifou contra o piso de madeira, explodindo em dezenas de pedaços afiados que ecoaram como um tiro por toda a cobertura.
Cada conversa parou.
Passos pesados se aproximaram imediatamente.
Marcus apareceu primeiro.
O rosto de Arya ficou pálido.
— Desculpa — sussurrou ela. — Eu limpo isso.
Ela se apressou pra frente, mas um pedaço afiado de porcelana cortou fundo no calcanhar dela.
Ela gritou de dor enquanto o sangue se espalhava pelo chão polido.
Antes que qualquer outra pessoa reagisse, Marcus chegou até ela.
A mão dele segurou o cotovelo dela com firmeza — mas surpreendentemente gentil — impedindo que ela caísse.
— Não se mexa — ordenou ele, baixinho. — Você só vai piorar.
Arya congelou.
Era a primeira vez que ele a tocava desde o dia do casamento.
Marcus baixou os olhos pro sangue manchando o chão, depois olhou lentamente de volta pro rosto assustado dela.
Por um único batimento de coração, a máscara cuidadosamente controlada que ele usava havia três longos anos desapareceu completamente.
Medo.
Não por ele mesmo.
Por ela.
Os homens armados ao redor trocaram olhares desconfortáveis enquanto a expressão de Marcus se endurecia em algo que nenhum deles jamais tinha testemunhado antes.
E, naquele momento silencioso, Arya percebeu que a distância fria que ela sempre confundira com indiferença podia estar escondendo um segredo muito mais perigoso — um segredo capaz de derrubar todo o império dele, se as pessoas erradas descobrissem o quanto ela realmente significava pra ele.
