Chapter 2
O ar da noite bateu no rosto de Clara como um balde de água fria assim que Leo abriu a porta lateral do clube.
Ela ainda sentia o gosto do bourbon na língua, quente e amargo. As pernas tremiam, mas não de medo — de um jeito estranho, quase elétrico, que ela não sabia nomear.
Um carro preto, discreto, sem placas visíveis à primeira vista, esperava na esquina. O motorista, um homem de meia-idade com o rosto fechado, saiu e abriu a porta de trás sem dizer uma palavra.
Leo colocou a mão na parte baixa das costas de Clara — de leve, quase sem tocar — guiando-a até o carro. O gesto era pequeno, mas ela sentiu o peso dele como se fosse uma marca.
Dentro do carro, o silêncio era denso. Clara olhava pela janela, vendo as luzes da cidade escorregarem pelo vidro. Leo estava sentado ao lado dela, mas mantinha uma distância cuidadosa, como se tivesse decidido, num acordo consigo mesmo, que não ia se aproximar de novo.
— Você não precisa fazer isso — ela disse por fim, quebrando o silêncio. — Eu pego um ônibus.
— Não às três da manhã. — A voz dele era baixa, definitiva.
— Achei que homens como você não se importavam com esse tipo de coisa.
Leo virou o rosto para ela pela primeira vez desde que entraram no carro. — Que tipo de coisa?
— Segurança. De garçonete.
Ele não respondeu na hora. Ficou olhando para ela por um momento longo demais para ser confortável. — Você não é só uma garçonete, Clara.
Ela sentiu o estômago revirar. — Sou exatamente isso. É o que pago minhas contas fazendo.
— Você é a única pessoa naquele clube que me olha nos olhos.
Clara riu, um som seco, sem humor. — Talvez eu seja só burra.
— Talvez você seja a única pessoa sã naquele lugar. — Ele desviou o olhar para a janela, como se tivesse dito mais do que pretendia.
O carro parou em frente a um prédio velho, de tijolo escuro, num bairro que definitivamente não combinava com o terno que Leo usava. Ela sabia que ele já sabia onde ela morava. A informação não a surpreendeu; só a incomodou um pouco, o quanto ele parecia saber sobre a vida dela sem nunca ter perguntado nada.
— Como você sabe onde eu moro? — ela perguntou, a mão já na maçaneta.
— Eu sei muita coisa sobre as pessoas que trabalham para mim.
— Isso devia me deixar mais assustada do que deixa.
Um traço quase de sorriso passou pelo canto da boca dele. — Devia.
Ela abriu a porta, mas antes de sair, hesitou. — Obrigada. Pela carona. E por… — ela fez um gesto vago com a mão, sem saber como nomear o que tinha acontecido no clube.
— Não agradeça por isso — ele disse, sério de novo. — Dominic vai acordar num galpão e vai continuar respirando. Isso não é generosidade. É controle.
— Então por que fez aquilo?
Leo ficou quieto por um segundo. — Porque ninguém toca em você.
As palavras pousaram entre eles como uma pedra jogada num lago parado. Clara sentiu o coração acelerar de um jeito que não tinha nada a ver com medo.
— Isso é uma ordem ou uma promessa? — ela perguntou, a voz mais baixa do que pretendia.
— As duas coisas — ele respondeu.
Ela saiu do carro sem dizer mais nada, porque não confiava na própria voz. Subiu os três lances de escada até o apartamento pequeno que dividia com o irmão mais novo, Tommy, e só quando fechou a porta atrás de si percebeu que estava tremendo.
Tommy estava acordado, sentado na mesa da cozinha minúscula, livros de faculdade espalhados, uma xícara de café frio ao lado. Ele olhou para ela, surpreso.
— Você nunca chega tão tarde assim. Aconteceu alguma coisa?
Clara balançou a cabeça, tentando parecer normal. — Turno longo. Só isso.
— Clara. — Tommy a conhecia bem demais para engolir aquilo. — Seu braço.
Ela olhou para baixo e viu as marcas roxas começando a aparecer onde os dedos de Dominic tinham cravado. Puxou a manga da blusa para cobrir.
— Bateu numa mesa. Não é nada.
Tommy não pareceu convencido, mas não insistiu. Ele sabia, no fundo, que quanto menos perguntasse sobre o trabalho da irmã, melhor para os dois. As contas do hospital da mãe deles ainda pesavam como uma sombra sobre tudo o que faziam.
Naquela noite, Clara não conseguiu dormir. Ficava vendo o rosto de Leo quando disse “ninguém toca em você” — não como ameaça, mas como algo mais profundo, mais perigoso do que qualquer arma naquele clube.
No dia seguinte, quando chegou para o turno, encontrou um envelope grosso debaixo do balcão, endereçado a ela, sem remetente. Dentro, dinheiro — muito mais do que qualquer gorjeta justificaria — e um bilhete curto, escrito à mão, com uma letra angulosa e precisa: Para as contas do hospital. Sem perguntas.
Ela ficou parada por um longo minuto, o envelope tremendo levemente na mão. Sabia exatamente de quem era, mesmo sem assinatura.
Naquela noite, quando Leo entrou no clube e se sentou no reservado de sempre, Clara se aproximou, o envelope na mão.
— Não posso aceitar isso.
— Já aceitou. Está no seu bolso.
— Vou devolver.
— Não vai. — Ele disse isso sem levantar os olhos do copo. — Sua mãe precisa do tratamento. Seu irmão precisa da faculdade. Eu tenho dinheiro sobrando e nenhuma razão pra guardar.
— Isso não é assim que funciona, Leo. — O nome dele saiu da boca dela pela primeira vez, sem o “senhor Castelli”, e os dois perceberam ao mesmo tempo.
Ele finalmente ergueu os olhos. — E como funciona, na sua opinião?
— Homens como você não dão nada de graça.
— Você está certa. — A voz dele baixou. — Eu quero alguma coisa.
O coração dela disparou. — O quê?
— Que você pare de ter medo de mim.
Clara ficou em silêncio, o envelope ainda apertado entre os dedos. Havia algo assustadoramente sincero na forma como ele disse aquilo — como se fosse a coisa mais difícil que já tinha pedido a alguém.
— Eu não tenho medo de você — ela disse por fim. — Isso é o problema, não é? Todo mundo tem medo de você, menos eu.
— É — ele concordou baixinho. — É exatamente o problema.
Do outro lado do salão, perto da porta dos fundos, um homem observava a cena com os olhos semicerrados. Ricky, outro dos tenentes de Leo, mais velho, mais calculista que Dominic, e muito mais perigoso por saber ficar quieto. Ele tinha visto Dominic ser carregado inconsciente na noite anterior. Tinha ouvido os boatos correndo pelos corredores da organização — que o chefe tinha quebrado um homem por causa de uma garçonete.
Informação daquele tipo tinha valor. E Ricky sabia exatamente para quem vender.
Ele saiu do clube antes de Leo perceber que estava sendo observado, o celular já na mão, digitando um número que não devia existir em nenhum lugar registrado.
Enquanto isso, no reservado, Leo observava Clara guardar o envelope no bolso do avental, finalmente rendida.
— Isso não muda nada entre nós — ela avisou.
— Já mudou tudo — ele respondeu, com uma calma que era quase mais assustadora do que a fúria da noite anterior. — Só uma de nós dois ainda está fingindo o contrário.
