Chapter 3
O bilhete chegou três dias depois, dobrado dentro de um cardápio que ninguém tinha pedido.
Clara só percebeu porque o papel estava mais grosso do que o resto do menu. Abriu no fundo da cozinha, longe dos olhos de qualquer um, e sentiu o sangue gelar.
Sabemos sobre a dívida da sua mãe. Sabemos quem está pagando agora. Encontre-nos amanhã, meio-dia, no café da Rua Aldervale. Venha sozinha. Não conte ao seu novo amigo.
Não havia assinatura. Não precisava.
Ela dobrou o papel de volta e enfiou no bolso, as mãos tremendo de um jeito que não tinha nada a ver com cansaço.
Durante o resto do turno, Clara serviu drinques, limpou mesas, sorriu para clientes que nem olhava direito, tudo no piloto automático. A mente estava presa naquelas poucas frases. Quem está pagando agora. Isso significava que sabiam do envelope. Sabiam de Leo.
Quando ele chegou naquela noite, sentou no reservado de sempre, os olhos a encontrando do outro lado do salão antes mesmo de se sentar. Havia uma pergunta silenciosa ali — ele sempre sabia quando alguma coisa estava errada com ela, e isso a assustava quase tanto quanto o bilhete.
Ela não contou.
Não porque não confiasse nele. Mas porque, pela primeira vez em anos, tinha algo que era só dela para resolver — e uma parte cansada, orgulhosa, dela mesma queria provar que não precisava ser salva o tempo todo.
No dia seguinte, ao meio-dia, o café da Rua Aldervale estava quase vazio. Clara entrou com o coração martelando, os olhos varrendo as mesas.
No canto, um homem que ela reconheceu vagamente — tinha visto de relance no clube, sempre nas sombras, sempre quieto. Ricky.
— Senta — ele disse, sem se levantar.
Ela sentou, mantendo distância mental mesmo estando a um metro dele.
— Você sabe quem eu sou? — ele perguntou.
— Um dos homens do Leo.
— Era. — Ele sorriu, um sorriso fino, sem calor. — Agora trabalho para gente mais interessante.
— O que você quer de mim?
Ricky se inclinou para frente. — Você sabe que a dívida da sua mãe foi comprada, certo? Faz uns dois meses. Um fundo qualquer, offshore, sem nome visível.
Clara sentiu o estômago revirar. — Eu não sabia disso.
— Pois é. E adivinha quem realmente é dono desse fundo. — Ele fez uma pausa dramática, saboreando o momento. — Cassian Volkov.
O nome não significava nada para ela, e isso deve ter mostrado no rosto, porque Ricky riu, um som seco.
— Claro que você não sabe quem é. Volkov é o homem que matou a família do Leo há doze anos. Pai, mãe, irmã mais nova. Um incêndio “acidental” numa casa de campo. Leo passou uma década construindo o império dele só pra ter poder suficiente pra chegar perto de Volkov sem morrer no processo.
Clara sentiu o chão sumir sob os pés. — Por que você está me contando isso?
— Porque Volkov comprou a dívida da sua mãe de propósito, Clara. Ele sabe que você trabalha pro Leo. Sabe que Leo gosta de você — palavra forte, eu sei, mas é a que se aplica. Ele está usando você como isca. A qualquer momento, pode apertar essa dívida, ameaçar sua família, e forçar o Leo a fazer algo estúpido. Alguma coisa que o exponha.
— E você está me contando isso porque…?
— Porque tenho um preço. — Ricky abriu as mãos, quase se desculpando. — Informação vale dinheiro dos dois lados, docinho. Eu já vendi o que sei pro Volkov. Agora estou vendendo pra você a chance de se proteger antes que a bomba estoure.
— Quanto?
— Não quero seu dinheiro. — Ele se levantou, ajeitando o paletó. — Quero que você fale bem de mim pro Leo quando tudo isso vier à tona. Porque vai vir. E quando vier, alguém vai precisar de um bode expiatório, e prefiro que não seja eu.
Ele saiu do café sem olhar para trás, deixando Clara sozinha com uma xícara de café intocada esfriando na mesa e um peso no peito que parecia esmagar os pulmões.
Ela voltou para casa andando, precisando do ar frio para organizar os pensamentos. Doze anos. Uma família inteira queimada. E agora a dívida da própria mãe dela — o peso que carregava havia meses, a razão pela qual aceitava trabalhar até de madrugada num clube perigoso — era, na verdade, uma arma apontada para Leo.
Naquela noite ela não foi trabalhar. Ligou dizendo que estava doente, e passou horas sentada no chão do quarto minúsculo, girando o celular entre os dedos, debatendo se devia ligar para ele.
No fim, foi Leo quem apareceu.
Bateu na porta do apartamento pouco depois da meia-noite, algo que nunca tinha feito antes. Tommy, surpreso, abriu a porta e recuou instintivamente diante da presença dele — havia algo no jeito de Leo ocupar espaço que fazia qualquer pessoa recuar, mesmo sem ameaça nenhuma.
— Ela está bem? — foi a primeira coisa que ele perguntou, olhando para Tommy, mas já procurando Clara com os olhos por cima do ombro do garoto.
Clara apareceu atrás do irmão, os braços cruzados, tentando parecer mais controlada do que se sentia.
— Estou bem.
— Você não veio trabalhar.
— Eu tenho o direito de ficar doente, Leo.
— Você não parece doente. Parece apavorada.
Tommy olhou entre os dois, claramente sem entender a dinâmica, mas sentindo que precisava sair da sala. Murmurou algo sobre ir dormir e desapareceu no quarto, fechando a porta.
Sozinhos na sala minúscula, Leo deu um passo à frente. — O que aconteceu, Clara?
Ela hesitou. A parte cínica, orgulhosa, ainda queria proteger aquele segredo, resolver sozinha. Mas olhando para o rosto dele — a tensão contida, a preocupação que ele nunca soube esconder direito quando se tratava dela — a resistência desmoronou.
— Alguém sabe da dívida da minha mãe — ela disse baixinho. — E sabe quem está pagando agora.
O rosto de Leo ficou completamente imóvel, do jeito perigoso e silencioso que Clara já tinha aprendido a temer.
— Quem te contou isso?
— Isso importa?
— Importa muito. — A voz dele era baixa, controlada, mas havia algo tremendo por baixo, como uma corda esticada até o limite.
— Ricky.
Um músculo se contraiu no maxilar de Leo. — E o que mais ele disse?
Clara respirou fundo, sentindo o peso das próximas palavras antes mesmo de dizê-las.
— Ele disse um nome. Cassian Volkov.
O silêncio que se seguiu foi diferente de qualquer outro que ela já tinha visto dele. Não era controle. Era algo quebrando por dentro, atrás daqueles olhos azul-claros que normalmente não deixavam passar nada.
— Onde você ouviu esse nome? — a voz dele saiu quase irreconhecível.
— Ricky disse que ele matou sua família. Que comprou a dívida da minha mãe de propósito. Que está me usando pra chegar em você.
Leo ficou parado, tão imóvel que por um momento Clara achou que ele tinha parado de respirar. Quando finalmente falou, a voz saiu num sussurro rouco, quase irreconhecível.
— Ele voltou.
