Chapter 1
ELA SALVOU UM HOMEM FERIDO NUM BECO ESCURO — DEPOIS DESCOBRIU QUE ELE ERA O CHEFÃO DA MÁFIA MAIS IMPIEDOSO DA CIDADE
A chuva de novembro em Boston caía como uma sentença. Gelada, implacável, cortava o tecido fino do trench coat de Clara Jenkins como se a cidade inteira tivesse alguma coisa contra ela. Eram 2h15 da manhã, e ela tinha acabado de terminar um plantão de catorze horas na ala de trauma do Massachusetts General. Os pés latejavam dentro do tênis já gasto, e o cheiro de antisséptico misturado com café requentado de hospital parecia grudado na pele dela. Tudo que ela queria era o radiador morno do apartamento apertado em Beacon Hill, uma xícara de chá de camomila, e esquecer o mundo por algumas horas.
Para economizar cinco minutos no trajeto, ela pegou o atalho — um beco de serviço estreito e sem iluminação, paralelo à Cambridge Street, cercado de lixeiras transbordando e escadas de incêndio enferrujadas de prédios de tijolo antigos. Ela apertou a bolsa de lona contra o peito, manteve a cabeça baixa, contando os passos. Mais dois quarteirões. Mais um. E foi então que ouviu.
Um som baixo, abafado. Uma respiração puxada com força. Um gemido de dor contido.
Clara congelou. A parte racional do cérebro dela — moldada por uma vida inteira morando numa grande cidade — gritava para ela continuar andando. Mas a enfermeira dentro dela, o instinto entranhado depois de anos salvando vidas, prendeu os pés dela no asfalto rachado.
— Olá? — ela chamou, a voz quase um sussurro contra o tamborilar da chuva. — Tem alguém aí?
Silêncio. Só o som da água escorrendo pelo bueiro. Ela deu um passo hesitante para frente, tirou o celular do bolso, e ligou a lanterna. O feixe branco cortou a escuridão, varrendo o tijolo molhado, cacos de vidro, e finalmente — um par de sapatos Oxford caros, manchados de sangue.
O ar ficou preso na garganta dela. Ela abaixou a luz. Um homem estava encostado na parede de tijolo, envolto em sombras, uma mão pressionada contra o abdômen, sobre uma mancha escura que tinha transformado a camisa branca dele num vermelho assustador. A chuva escorria sobre ele, diluindo a poça de sangue que se formava em volta das pernas.
— Meu Deus — ela ofegou, se ajoelhando ao lado dele. O cheiro metálico de sangue fresco atingiu suas narinas — um cheiro que ela conhecia bem demais. — Senhor, o senhor está me ouvindo? Eu sou enfermeira. Vou chamar uma ambulância.
Ela mexeu no celular, o polegar tremendo enquanto buscava o número de emergência. Antes que conseguisse discar, uma mão disparou da escuridão. Gelada, mas com uma força esmagadora e assustadora, fechou em volta do pulso dela como um torno de aço. Ela gritou. A lanterna caiu no chão molhado, o feixe iluminando o rosto dele.
Ele tinha traços firmes e aristocráticos, o maxilar marcado por uma barba por fazer escura, maçãs do rosto altas, e olhos tão escuros que pareciam vazios na noite. A pele estava mortalmente pálida pela perda de sangue, mas a intensidade letal no olhar era inconfundível.
— Sem polícia — ele rosnou. A voz dele era grave, rouca, com um sotaque sutil da Costa Leste. — Sem hospital.
— O senhor está sangrando até morrer — Clara disse, o coração batendo forte contra as costelas feito um pássaro preso. Ela tentou puxar o pulso de volta, mas a força dele não cedeu. — O senhor tem uma perfuração no abdômen. Se eu não chamar o resgate, o senhor vai morrer em menos de vinte minutos.
Ele se inclinou para frente, encolhendo-se com a dor do movimento na ferida. — Não. — Com a mão livre, ele puxou devagar a lapela do paletó cinza-chumbo, agora arruinado. Preso num coldre no ombro estava uma arma preta fosca. Ele não apontou para ela, mas a mensagem foi clara o suficiente para gelar o sangue de Clara.
— Você é enfermeira — ele sussurrou, a cabeça caindo para trás contra o tijolo enquanto a fraqueza tomava conta dele. — Me conserta.
— Eu não tenho material aqui fora. — O pânico subiu pela garganta dela. Ela olhou ao redor do beco deserto. Ninguém vinha. — Meu apartamento fica a três quarteirões daqui. O senhor consegue andar?
Ele não respondeu na hora. Os olhos escuros fixaram nos dela, examinando o rosto dela com um foco predatório perturbador, mesmo com a vida se esvaindo pelo asfalto. Ele estava calculando o risco, avaliando ela. Por fim, deu um único aceno seco.
— Me ajuda a levantar — ele ordenou.
Custou tudo que Clara tinha para colocá-lo de pé. Ele media facilmente um metro e noventa, construído como um lutador de peso pesado — uma massa sólida de músculo dentro de um terno que provavelmente custava mais que o salário anual dela. Ela passou o braço pesado dele sobre os próprios ombros, envolvendo a cintura dele com cuidado para evitar a ferida. O cheiro de perfume caro se misturava pesadamente com o cheiro de cobre do sangue.
— Qual é o seu nome? — ela perguntou, ofegante, enquanto começavam a caminhada torturante, cambaleante, para fora do beco.
— Dominic — ele rosnou, a respiração cada vez mais superficial e perigosa. — Só Dominic.
Os três quarteirões pareceram três quilômetros. Duas vezes os joelhos dele cederam, e Clara teve que se apoiar num carro estacionado para evitar que os dois desabassem juntos. Quando finalmente chegaram à porta de segurança enferrujada do prédio dela, na Philip Street, ela estava encharcada de suor e chuva, o uniforme manchado do sangue dele.
Ela fechou a porta do apartamento com o pé, trancando por puro instinto. — A cozinha — ela ofegou, guiando-o até a pequena bancada laminada no centro da sala apertada. — Sobe na mesa.
Dominic não discutiu. Cerrou os dentes, um som baixo e feroz escapando do peito enquanto se içava sobre a bancada, derrubando uma pilha de contas de luz atrasadas e uma caixa de cereal meio vazia. Ele se apoiou nos cotovelos, o peito subindo e descendo com força, aqueles olhos escuros sem nunca desgrudar do rosto dela.
Clara não hesitou. O protocolo do hospital tomou conta, calando o terror. Ela correu até o banheiro e pegou o kit de trauma pesado que carregava desde a faculdade de enfermagem — soro fisiológico estéril, iodo, gaze cirúrgica, pinça hemostática curva, porta-agulhas, fio de sutura. Quando voltou, Dominic tinha conseguido tirar o paletó destruído. No pulso esquerdo, um relógio que valia facilmente oitenta mil dólares, respingado de sangue.
— Vou ter que cortar sua camisa — ela disse, se posicionando entre as pernas dele para ter um ângulo claro do abdômen.
— Faz isso — ele sibilou, a cabeça caindo para trás.
Ela pegou a tesoura de trauma e cortou o algodão branco caro, afastando o tecido. O ferimento ficava embaixo, no lado direito, logo acima do osso do quadril. Ela limpou o excesso de sangue e soltou um pequeno suspiro de alívio.
— Você teve sorte — murmurou, as mãos se movendo com precisão rápida e treinada. — É perfurante, entrada e saída. A bala atravessou limpo pelas costas. Passou a menos de três centímetros do fígado e do rim direito. Mas o sangramento é sério. Preciso tamponar, dar pontos no músculo e depois na pele.
— Vai trabalhando, Florence Nightingale — ele murmurou, sombrio.
— Eu não tenho anestesia geral — Clara avisou, encarando os olhos dele. — Só um frasquinho de lidocaína. Não vai ser suficiente para uma sutura profunda. Isso vai doer muito.
— Já passei por coisa pior — Dominic respondeu, seco.
Clara não perguntou o que poderia ser pior do que levar pontos numa ferida de bala em cima da bancada da cozinha com quase nenhum analgésico. Ela puxou a lidocaína na seringa e injetou em círculo ao redor do ferimento. Dominic nem se contraiu. A frieza dele era assustadora. Homens normais gritavam. Homens normais desmaiavam. Dominic só ficava olhando para o teto, o maxilar travado com tanta força que os músculos tremiam.
Enquanto trabalhava — lavando a ferida, passando fio de seda grosso pela agulha curva — o silêncio no apartamento se esticou, tenso. O único som era a chuva batendo contra a janela de vidro simples e o ritmo irregular da respiração de Dominic.
— Vou começar os pontos profundos agora — ela avisou.
Quando a agulha perfurou o músculo rasgado, Dominic puxou o ar com força. A mão esquerda dele disparou, segurando o quadril dela para se firmar. A mão grande dele era quente, os dedos longos pressionando a pele dela através do uniforme fino. Clara congelou por uma fração de segundo, o coração disparando com o contato repentino e íntimo. Depois se forçou a continuar trabalhando.
— Por que você não foi a um hospital? — ela perguntou baixinho, tentando distraí-lo enquanto amarrava o primeiro nó.
— Porque hospital significa boletim de ocorrência — Dominic respondeu, a voz tensa. — E boletim de ocorrência significa um registro bem público da minha vulnerabilidade atual.
— Quem atirou em você?
— Homens que agora estão mortos — ele respondeu, frio.
As mãos de Clara tremeram de leve, mas ela se firmou. Estava costurando um assassino, ou alguém do crime organizado, ou coisa pior. Ainda assim, olhando para ele, ela não sentia o medo paralisante que sabia que devia sentir. Só via um corpo humano quebrado que precisava ser consertado.
