Chapter 5
A casa ficava a quarenta minutos da cidade, escondida atrás de uma fileira de pinheiros, o tipo de lugar que só existia nos registros de propriedade sob o nome de uma empresa fantasma qualquer.
Clara observava pela janela do carro enquanto os prédios davam lugar a estradas de terra e depois a um portão de ferro alto, discreto demais para chamar atenção, mas resistente o suficiente para parar um exército pequeno.
Dentro, sua mãe já estava instalada num quarto no andar térreo, mais perto do banheiro, uma enfermeira particular contratada por Leo cuidando dela em turnos. Tommy andava de um lado para o outro na sala, ainda tentando processar a velocidade com que a vida deles tinha virado de cabeça para baixo.
— Isso é loucura, Clara — ele sussurrou, quando os dois ficaram sozinhos na cozinha. — Quem é esse cara de verdade?
— É complicado, Tommy.
— Complicado é a palavra que a gente usa quando não quer explicar as coisas de verdade. — Os olhos dele, ainda tão jovens, estavam cheios de uma preocupação que a fez sentir uma pontada de culpa. — Você está em perigo por causa dele?
Ela não conseguiu mentir. — Estou em perigo por causa de gente que quer chegar até ele. Mas ele está fazendo de tudo pra nos proteger.
— E se não der certo?
Clara não teve resposta para isso.
Leo chegou ao anoitecer, o rosto marcado pelo cansaço de alguém que não dormia havia dias. Trouxe consigo dois homens que Clara não reconhecia — mais discretos que os capangas do clube, movendo-se pela propriedade com a eficiência silenciosa de quem tinha treinamento de verdade.
— Encontramos o esconderijo dele — Leo disse assim que ficaram a sós no escritório da casa, um cômodo pequeno dominado por um mapa da região espalhado sobre a mesa.
— Onde?
— Um complexo industrial abandonado, na zona portuária velha. Ele está usando como base há meses, provavelmente monitorando o clube o tempo todo.
— Você vai até lá.
— Amanhã à noite.
— Sozinho?
— Com homens que confio com minha vida. — Ele traçou uma linha no mapa com o dedo. — Não é suicídio, Clara. É cálculo.
Ela se aproximou da mesa, os olhos fixos nele. — Ricky sabia demais sobre tudo isso. Sobre a dívida, sobre Volkov, sobre onde eu moro.
Leo ergueu os olhos, algo escurecendo neles. — Está dizendo o que eu acho que está dizendo?
— Estou dizendo que talvez ele não tenha vendido a informação só uma vez.
Um silêncio pesado tomou o escritório. Leo pegou o celular e discou um número, a mandíbula travada.
— Encontrem o Ricky — disse, sem preâmbulos. — Agora.
Passaram-se duas horas angustiantes antes que um dos homens voltasse com a notícia: Ricky tinha desaparecido. O apartamento dele estava vazio, roupas ainda no armário, como se tivesse saído com pressa e nunca mais voltado — ou como se tivesse sido levado.
— Volkov chegou primeiro — Leo murmurou, olhando pela janela escura. — Ele sabe que sabemos.
— Isso muda os planos?
— Isso significa que ele vai atacar antes de esperarmos.
Naquela noite, Clara não conseguiu dormir. Ficou sentada na varanda dos fundos da casa, olhando para as árvores escuras, o coração pesado com um pressentimento que não conseguia nomear.
Leo a encontrou lá pouco antes do amanhecer, dois copos de chá quente nas mãos.
— Você devia estar dormindo — ele disse, entregando um dos copos.
— Você também.
Ele se sentou ao lado dela, o silêncio confortável entre eles pela primeira vez em dias.
— Tenho medo — ela admitiu, a voz pequena. — Não de morrer. De perder você antes de a gente ter a chance de descobrir o que isso é de verdade.
Leo pousou o copo no chão de madeira e segurou o rosto dela entre as mãos. — Eu vou voltar. Prometo.
— Homens como Volkov não fazem promessas fáceis de cumprir.
— Eu não sou como ele. — A voz dele era firme, quase feroz. — Eu construí um império pra proteger o que restou da minha família. Não vou perder a única coisa boa que aconteceu depois de tudo aquilo.
Ela se inclinou, e dessa vez foi ela quem cruzou a distância entre eles, os lábios encontrando os dele num beijo que carregava tanto medo quanto desejo, tanto despedida quanto promessa.
Quando se afastaram, testas ainda coladas, Leo sussurrou contra a pele dela: — Amanhã à noite isso vai acabar. De um jeito ou de outro.
No dia seguinte, ao cair da tarde, os homens de Leo se reuniram na garagem da propriedade, verificando armas com a calma mecânica de profissionais. Leo vestia um colete à prova de balas por baixo do paletó escuro, o rosto uma máscara de determinação fria.
Clara o observava da porta, os braços cruzados sobre o peito, tentando não deixar transparecer o terror que sentia por dentro.
— Se algo der errado — ele disse, se aproximando dela pela última vez antes de entrar no carro — tem um envelope na gaveta do meu escritório. Endereços, contas, tudo transferido pro seu nome e do Tommy. Vocês vão ficar bem.
— Não fala assim. Como se já estivesse se despedindo.
— Estou sendo realista.
— Seja cuidadoso, então. Não realista.
Um traço fraco de sorriso cruzou o rosto dele. — Vou tentar as duas coisas.
O carro se afastou pela estrada de terra, as luzes traseiras desaparecendo na escuridão crescente, e Clara ficou parada no meio do caminho, o coração apertado, rezando para um Deus em que não tinha certeza se ainda acreditava.
