Chapter 2
Às seis da manhã seguinte, uma van preta esperava do lado de fora da Vale Auto Repair.
Frankie saiu de casa vestindo o macacão de trabalho mais surrado que tinha, decidida a não dar a Gabriel Costa a satisfação de vê-la se arrumar pra aquilo.
O motorista, um homem grande, calado, de nome Dante, mal olhou pra ela quando abriu a porta.
— Pra onde vamos? — perguntou Frankie, entrando.
— Doca Sete. Frota precisa de manutenção nos caminhões antes do carregamento da tarde.
— Eu conserto carro de gente comum. Não sei nada sobre frota de transporte.
Dante deu de ombros.
— O chefe disse que a senhora entende de motor. Motor é motor.
O restante do trajeto foi em silêncio.
A Doca Sete era enorme — hangares de metal, contêineres empilhados até onde a vista alcançava, homens transitando com rádios e coletes, um movimento constante que não parecia nada com o pequeno mundo da oficina de Frankie.
Gabriel estava lá, encostado num dos caminhões, terno substituído por uma jaqueta escura, mangas dobradas, como se aquele lugar fosse tão dele quanto o escritório de vidro.
— Francesca.
— Não uso esse nome.
— Eu gosto dele.
— Eu não perguntei o que você gosta.
Um leve sorriso cruzou o rosto dele, rápido demais pra ela ter certeza de ter visto.
— Caminhão três está com problema na embreagem. Você tem quatro horas antes da próxima saída.
— E se eu não conseguir em quatro horas?
— Então você fica até conseguir.
Frankie pegou a caixa de ferramentas que alguém tinha deixado no chão e caminhou até o caminhão sem responder, porque responder só ia alimentar aquele jogo estranho que parecia diverti-lo demais.
As horas passaram em trabalho de verdade — o único tipo de coisa que fazia sentido pra ela naquele lugar todo estranho. Suas mãos conheciam aquilo, mesmo que o resto da situação parecesse impossível.
Por duas vezes, ela sentiu os olhos de Gabriel nela, à distância, observando de um jeito que não tinha nada a ver com verificar se o trabalho estava sendo feito direito.
Na terceira vez, ela parou, limpou as mãos no pano preso ao cinto, e o encarou de volta.
— Você tem gente pra fazer isso — disse ela. — Mecânicos de verdade, contratados, com carteira assinada. Por que eu?
Gabriel se aproximou, as mãos nos bolsos da jaqueta.
— Porque você trabalha rápido, não reclama, e não tenta roubar peça pra vender depois.
— Isso é só metade da resposta.
Ele parou bem na frente dela, próximo o suficiente pra ela sentir o cheiro de couro e alguma coisa mais amadeirada.
— A outra metade é que eu gosto de te ver brava. É raro alguém não ter medo de mim.
— Eu tenho medo de você.
— Não parece.
— Ter medo e demonstrar medo são coisas diferentes. Meu pai me ensinou isso antes de morrer.
Alguma coisa mudou no rosto de Gabriel — não pena, algo mais parecido com reconhecimento.
— Meu pai também tinha teorias parecidas.
— O que aconteceu com ele?
— A mesma coisa que geralmente acontece com homens no meu ramo.
Ele não elaborou, e Frankie não perguntou de novo.
Um homem se aproximou apressado, um dos que trabalhavam perto dos escritórios da doca, o rosto tenso.
— Sr. Costa. Precisamos falar. Agora.
Gabriel não desviou os olhos de Frankie imediatamente.
— O que foi, Ricci?
— É sobre o carregamento de amanhã. Recebemos… uma mensagem. Dos Bellucci.
O nome fez algo se contrair no rosto de Gabriel, rápido, controlado, mas Frankie tinha passado a vida inteira lendo expressões de homens que escondiam problemas debaixo do capô de um carro — ela sabia reconhecer alarme quando via um.
— Vou até lá — disse Gabriel, já se virando.
Antes de sair, ele olhou de volta pra Frankie.
— Termina o caminhão. Dante te leva pra casa depois.
— Quem são os Bellucci?
— Ninguém que deva te preocupar.
— Você disse a mesma coisa sobre a dívida do meu irmão, e olha onde eu estou agora.
Gabriel parou, meio virado, o perfil dele contra a luz cinzenta da tarde na doca.
— Os Bellucci são a família que eu tirei esse território há cinco anos. Eles não esqueceram, e não perdoaram.
— E o que isso tem a ver comigo?
— Nada. Ainda.
A palavra “ainda” ficou pairando no ar entre eles, do mesmo jeito preocupante que “até agora” tinha ficado entre Clara e Declan numa história completamente diferente, num mundo que Frankie nem sabia que existia até alguns dias atrás.
Ele se afastou, cercado rapidamente por três homens, todos falando baixo, urgentes, enquanto caminhavam em direção aos escritórios da doca.
Frankie ficou olhando, a chave inglesa ainda na mão, sentindo pela primeira vez que aquela dívida do irmão talvez fosse a menor das suas preocupações dali pra frente.
