O cheiro de fluido de transmissão queimado nunca saía de verdade. Ficava embaixo das unhas, dentro das camisas de trabalho, nas rachaduras profundas das mãos de Frankie Vale, por mais que ela esfregasse

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Chapter 5

Levaram três dias pra descobrir o informante.

Foi Ricci — o mesmo homem que tinha corrido até Gabriel com o aviso sobre o carregamento não autorizado, semanas atrás, o mesmo que estava presente em quase todas as conversas importantes desde o início.

Ele confessou antes mesmo de ser pressionado de verdade, o peso da culpa aparentemente maior do que qualquer lealdade que restava.

— Vittorio me pagou pra informar rotinas há oito meses — disse ele, a voz quebrada, sentado numa cadeira no meio do galpão vazio, cercado por homens que uma semana antes ele chamava de irmãos. — No início era coisa pequena. Depois virou grande demais pra eu recuar.

— E você entregou a localização de Frankie sabendo o que eles fariam — disse Gabriel, a voz sem nenhuma emoção visível, o que era, de longe, mais assustador do que gritar teria sido.

— Eu não sabia que eles iam atirar com ela lá.

— Você sabia que eles queriam me atingir através de alguém que eu protegia. O resto era só questão de tempo.

Frankie, observando de longe, sentiu um arrepio ao ver o quanto aquele mundo funcionava por regras completamente diferentes de tudo que ela conhecia — regras que ela, de alguma forma impossível, agora fazia parte.

O que aconteceu com Ricci depois, ela nunca perguntou, e Gabriel nunca contou.

Alguns silêncios, ela estava aprendendo, era melhor não preencher.

Vittorio Bellucci recuou completamente duas semanas depois, após uma reunião entre famílias que Gabriel descreveu apenas como “conversamos sobre limites” — palavras ditas com um peso que sugeria muito mais do que uma simples conversa.

O território voltou a ficar tranquilo.

Leo, ainda abalado com tudo que tinha quase custado à irmã, finalmente parou de tratar o próprio futuro como aposta de mesa de jogo, assumindo mais responsabilidade na oficina do que jamais tinha assumido antes.

E a dívida — os trezentos mil dólares que tinham começado tudo aquilo — Gabriel simplesmente riscou, sem cerimônia, numa tarde qualquer, entregando os papéis quitados a Frankie como quem devolve algo que nunca deveria ter sido tirado dela em primeiro lugar.

— Isso não estava no acordo — disse ela, olhando os documentos, confusa.

— O acordo mudou.

— Quando?

— No dia em que você me xingou em siciliano na minha própria mesa e eu percebi que, pela primeira vez em anos, alguém estava olhando pra mim, não pro meu dinheiro nem pro meu poder.

Ela colocou os papéis de lado, cruzando os braços.

— Então o que eu sou agora, Gabriel? Já não sou mais funcionária forçada. Já não devo mais nada.

Ele se aproximou, o mesmo jeito calculado e ao mesmo tempo cru de semanas atrás, quando tinha pedido pra ela repetir cada palavra do xingamento olhando direto nos olhos dele.

— Você é a única pessoa que eu já conheci que não teve medo de me dizer não, mesmo quando eu segurava tudo o que ela tinha nas mãos. E eu gostaria, se você permitir, que fosse muito mais do que isso a partir de agora — não porque eu exijo, mas porque eu escolho, e espero que você escolha também.

Frankie olhou pra ele por um longo momento, lembrando da primeira vez que tinha entrado naquele escritório de vidro pronta pra perder tudo, e de como, de alguma forma impossível, tinha saído dali com mais do que jamais imaginou ter de volta.

— Minha avó diria que eu sou louca — disse ela, finalmente, um meio-sorriso escapando.

— O que ela diria sobre isso?

— Ela diria que homem nenhum vale a pena, exceto aquele que aguenta ouvir a verdade na cara sem revidar.

Gabriel sorriu, o mesmo sorriso raro e genuíno da primeira tarde no escritório.

— Então acho que passei no teste dela.

— Ainda não. — Frankie se aproximou, encurtando o último pedaço de distância entre eles. — Mas está no caminho certo.

Lá fora, o pátio da doca continuava seu movimento constante de caminhões e contêineres, o mesmo lugar onde balas tinham voado dias antes, agora apenas mais um entardecer comum sobre um território finalmente em paz.

E você, que está lendo isso agora — já teve que encarar alguém de frente, sem medo, mesmo sabendo que podia perder tudo com isso? O que aconteceu depois que você decidiu não recuar?

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