O cheiro de fluido de transmissão queimado nunca saía de verdade. Ficava embaixo das unhas, dentro das camisas de trabalho, nas rachaduras profundas das mãos de Frankie Vale, por mais que ela esfregasse

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Chapter 4

O caos no portão norte era absoluto quando eles chegaram.

Homens gritavam ordens, rádios crepitavam, luzes de segurança varriam contêineres empilhados que, minutos antes, estavam perfeitamente organizados.

— Fica no carro — disse Gabriel, a voz cortante, sem espaço pra discussão.

— Não.

— Frankie, por favor. Só dessa vez.

— Meu irmão está em algum lugar dessa cidade, sozinho, com gente dos Bellucci sabendo onde ele mora. Eu não vou ficar sentada esperando notícia de novo.

Antes que ele pudesse responder, um som seco cortou o ar.

Tiro.

Depois outro.

Gabriel a empurrou pro chão atrás de um contêiner, o próprio corpo cobrindo o dela, enquanto o caos ao redor deles explodia de vez — gritos, mais tiros, o som de metal sendo atingido por balas em algum lugar próximo demais.

— Fica abaixada — sussurrou ele, os olhos varrendo o espaço ao redor com uma calma assustadora, como um homem que já tinha estado exatamente naquela situação vezes demais pra contar.

— Gabriel—

— Confia em mim.

Ele se moveu rápido, puxando uma arma de dentro do casaco, e por um instante, o homem que ria de xingamentos em siciliano desapareceu completamente, substituído por alguém que Frankie mal reconhecia — preciso, letal, absolutamente concentrado.

Dante apareceu correndo por trás dos contêineres, sangue escorrendo de um corte no braço, mas ainda de pé.

— São seis, talvez sete — disse ele, ofegante. — Vieram atrás do carregamento de amanhã. Não sabiam que a senhora estaria aqui.

— Onde está o Leo? — perguntou Frankie, o pânico subindo pela garganta.

— Seu irmão está seguro — disse Dante rapidamente. — Mandei dois homens pra casa de vocês assim que a briga começou aqui.

O alívio durou pouco.

Um dos homens dos Bellucci contornou o contêiner ao lado deles, arma erguida, e por uma fração de segundo, tudo pareceu congelar — o cano apontado diretamente pra Frankie, o rosto do homem sem qualquer hesitação.

Gabriel se moveu antes que ela conseguisse sequer processar o perigo.

O tiro dele foi mais rápido.

O homem caiu, e Gabriel já estava puxando Frankie pra trás de novo, o coração dela martelando tão forte que ela conseguia sentir cada batida na garganta.

— Você está bem? — perguntou ele, as mãos passando rápido pelo corpo dela, verificando, os olhos cheios de um pânico que ele claramente não estava acostumado a sentir.

— Estou. Estou bem.

— Eu devia ter te trancado em algum lugar seguro no minuto em que soube dessa ameaça.

— E eu teria fugido de qualquer jeito.

Um silêncio breve, absurdo, passou entre eles no meio do caos, quase um meio-sorriso cruzando o rosto tenso de Gabriel.

Os tiros diminuíram gradualmente, os homens da Vanguard ganhando controle da situação, até que só restou o som de sirenes distantes se aproximando e o gemido baixo de homens feridos espalhados pelo pátio.

Um dos capangas dos Bellucci foi capturado vivo, arrastado pra dentro do escritório da doca, o rosto pálido de medo diante do que claramente sabia que vinha a seguir.

— Quem mandou vocês? — perguntou Gabriel, a voz gelada, nenhum traço restante do homem que segurava Frankie minutos antes com tanto cuidado.

O homem hesitou.

Gabriel deu um passo à frente.

— Vittorio Bellucci — disse o homem, rápido demais, o medo vencendo qualquer lealdade. — Ele quer o território de volta. E descobriu que atacar a doca enquanto a mecânica estava presente mandaria uma mensagem mais forte.

O sangue de Frankie gelou.

— Eles sabiam que eu estaria aqui.

— Isso não foi coincidência — confirmou Gabriel, os olhos ainda fixos no homem capturado, a voz baixa e mortal. — Alguém informou minha rotina a eles. Alguém perto o suficiente pra saber que eu estaria na doca essa noite, com você.

Um silêncio pesado caiu sobre o grupo reunido ali.

Dante e Ricci trocaram olhares.

— Vou descobrir quem foi — disse Gabriel, finalmente se virando de volta pra Frankie, a fúria da situação toda ainda visível nos ombros tensos, na mandíbula travada. — E quando eu descobrir, essa pessoa vai desejar ter nascido dos Bellucci, não de mim.

Frankie olhou pro homem à sua frente — coberto de pó, sangue de outra pessoa na manga do casaco, olhos ainda cheios da adrenalina de ter acabado de matar alguém pra protegê-la — e percebeu, com um choque estranho e silencioso, que já não sabia mais separar o medo que sentia dele do que sentia por ele.

— Vittorio não vai parar por aqui, vai? — perguntou ela, baixinho.

— Não. — Gabriel se aproximou, tomando o rosto dela entre as mãos sujas de pólvora, com um cuidado que contradizia tudo o que tinha acabado de acontecer. — Mas eu também não vou parar até isso terminar de vez. Isso eu te prometo, Francesca.

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