Chapter 3
Duas semanas se passaram naquele ritmo estranho — dias na oficina, tardes na frota de Gabriel, o corpo de Frankie aprendendo os caminhões da Vanguard tão bem quanto conhecia os carros da própria loja.
Leo tinha voltado a trabalhar na oficina, mais quieto, mais cuidadoso, como se a surra que tinha levado finalmente tivesse ensinado alguma coisa que anos de sermões da irmã nunca conseguiram.
Foi numa quinta-feira à noite, fechando a Vale Auto sozinha, que Frankie percebeu o carro parado do outro lado da rua pela terceira vez naquela semana.
Ela não disse nada a ninguém no início.
Só prestou atenção.
Placa diferente a cada vez, mas o mesmo modelo, a mesma sombra atrás do volante, sempre estacionado no mesmo ângulo, como quem estuda rotina antes de agir.
Na sexta-feira, Leo chegou em casa mais nervoso que o normal, evitando os olhos dela enquanto esquentava a comida.
— Leo.
— Que foi?
— O que você não está me contando?
Ele hesitou tempo demais antes de responder.
— Um cara me abordou hoje. Perto do mercado. Disse que trabalha pros Bellucci.
O garfo de Frankie parou no ar.
— E o que ele queria?
— Informação. Sobre os horários dos caminhões da Vanguard. Sobre… sobre você.
— Sobre mim?
— Ele sabia que você trabalha na frota do Costa agora. Perguntou se vocês dois estavam… — Leo hesitou de novo — se tinha alguma coisa entre vocês.
Frankie largou o garfo.
— E você disse o quê?
— Disse que não sabia de nada. Mas, Frankie, eles sabiam coisas. Sabiam da nossa rotina, sabiam onde a gente mora, sabiam até o horário que você sai da doca às terças.
Um arrepio gelado subiu pela espinha dela.
No dia seguinte, ela contou tudo a Gabriel, encontrando-o no pequeno escritório improvisado dentro do galpão da doca, cercado de papéis e mapas de rotas que ela nunca tinha visto de perto antes.
Ele ouviu em silêncio absoluto, a mandíbula travando mais a cada detalhe.
— Eles estão te vigiando há pelo menos duas semanas — disse ele, por fim, a voz perigosamente contida. — Desde que você começou a trabalhar aqui.
— Por quê, Gabriel? O que eu tenho a ver com uma guerra de território que começou anos antes de eu nem saber que você existia?
— Porque os Bellucci aprenderam, do jeito difícil, que a melhor forma de me atingir nunca foi atacar meu negócio diretamente. É atacar o que eu decido proteger.
— E eu virei isso? Uma coisa que você decidiu proteger?
Ele ergueu os olhos, e havia algo cru ali, algo que ele claramente não tinha planejado deixar transparecer.
— Você virou isso no dia em que riu, xingou minha família inteira em siciliano, e não recuou um centímetro na minha frente. Eu não escolhi isso, Francesca. Simplesmente aconteceu.
— Isso não é romântico, Gabriel. Isso é perigoso. Meu irmão está apavorado. Eu tenho olhado por cima do ombro a semana inteira.
— Eu sei.
— Então faz alguma coisa!
— Estou fazendo. — A voz dele baixou, mais séria do que ela jamais tinha ouvido. — Amanhã, vou até os Bellucci pessoalmente. Vou deixar claro que qualquer movimento contra você ou seu irmão será tratado como movimento contra mim diretamente, sem intermediários, sem meio-termo.
— Isso não vai piorar as coisas?
— Vai deixar tudo mais simples. — Ele se levantou, contornando a mesa até ficar diante dela. — Ambiguidade é o que os deixa ousados, Frankie. Clareza os deixa cautelosos.
Ela olhou pra ele, tentando entender o homem que, semanas atrás, tinha ameaçado tomar sua oficina e sua liberdade como se fosse a coisa mais natural do mundo, e que agora falava em ir sozinho enfrentar uma família inteira só pra mantê-la segura.
— Por que você está fazendo isso? — perguntou ela, baixinho. — De verdade.
Gabriel ficou tão perto que ela sentiu o calor do corpo dele antes mesmo de ele responder.
— Porque, pela primeira vez em muito tempo, encontrei alguém que não quer nada de mim além de continuar consertando seus próprios carros em paz. E eu descobri que estou disposto a ir longe demais pra garantir que você consiga isso.
O celular dele vibrou antes que qualquer um dos dois pudesse dizer mais alguma coisa.
Ele leu a mensagem, e o rosto inteiro dele mudou — a mesma transformação fria e alerta que ela já tinha visto uma vez antes.
— O que foi? — perguntou Frankie, o coração já acelerando.
— Câmeras da doca captaram um carregamento não autorizado entrando pelo portão norte há vinte minutos.
— E isso significa o quê?
Gabriel já estava pegando o casaco, o telefone colado no ouvido, chamando Dante, chamando Ricci, a urgência tomando conta de cada movimento dele.
— Significa que os Bellucci não esperaram eu ir até eles.
— Eles vieram até aqui primeiro.
