Chapter 2
“Papai.”
A palavra caiu no silêncio da igreja abandonada como uma pedra num poço fundo demais pra medir.
Eu fiquei paralisado na porta, o vento gelado ainda entrando pelas frestas atrás de mim, incapaz de me mover, incapaz de respirar direito.
Ninguém me chamava assim havia mais de vinte anos. Nem quando meu próprio pai ainda era vivo, aquela palavra tinha soado natural na minha boca — quanto mais na boca de um menino que eu jamais tinha visto antes daquela noite.
“Como você me chamou?”, eu perguntei, a voz saindo mais rouca do que eu pretendia.
O menino se levantou devagar, cuidadoso pra não acordar as outras crianças ao redor dele, e deu alguns passos na minha direção.
“Meu nome é Gabriel”, ele disse. “Beatrice me disse que, se eu algum dia visse o senhor cara a cara, era pra eu dizer meu nome verdadeiro. Ela disse que o senhor ia entender.”
Eu senti o chão sumir debaixo de mim.
Gabriel. O nome do meu filho, que eu enterrei — ou pensei que tinha enterrado — doze anos atrás, num caixão pequeno demais, depois de um incêndio num galpão que minha própria organização ajudou a encobrir, pra proteger um segredo que eu nunca imaginei que fosse sobre ele.
Beatrice apareceu atrás do menino, o rosto sem nenhum vestígio do medo que eu tinha visto nas câmeras horas antes.
“Você não deveria estar aqui, Sr. Caruso”, ela disse, a voz firme, controlada.
“Esse menino é meu filho.”
“Esse menino é seu filho”, ela confirmou, sem hesitar. “E, se eu não tivesse tirado ele daquele galpão doze anos atrás, ele estaria morto de verdade, não só nos registros que a sua organização forjou.”
Minhas pernas quase cederam. Segurei na moldura de uma janela quebrada pra não cair.
“Do que você está falando?”
Beatrice olhou pras crianças dormindo ao redor, baixou a voz, e fez sinal pra eu segui-la até um canto mais isolado da igreja, longe dos pequenos corpos enrolados em cobertores.
“Doze anos atrás, eu trabalhava pra outra família. Não vou dizer qual, ainda. Recebi ordens pra confirmar a morte do seu filho depois do incêndio. Mas, quando cheguei no galpão, ele ainda estava vivo, escondido debaixo de uma escada, chorando, sozinho, enquanto os homens que deviam estar procurando sobreviventes já tinham ido embora, satisfeitos com o relatório que iam entregar.”
“Por que ninguém me contou isso?”
“Porque a pessoa que mandou incendiar aquele galpão não queria que o seu filho sobrevivesse, Sr. Caruso. E, se eu tivesse levado ele de volta pra você na época, a mesma pessoa teria terminado o serviço.”
O nome ficou suspenso entre nós, sem ser dito, mas presente como uma sombra.
“Quem?”, eu perguntei, a voz baixa, perigosa.
Beatrice hesitou pela primeira vez desde que eu tinha entrado naquela igreja.
“Eu prometi a mim mesma que só diria isso quando tivesse certeza absoluta de que o senhor não ia simplesmente matar a pessoa antes de entender o motivo todo.”
“Me dê o nome, Beatrice.”
“Ainda não.” Ela balançou a cabeça, firme. “Primeiro, o senhor precisa entender por que eu escondi Gabriel por doze anos, trabalhando disfarçada dentro da sua própria casa, arriscando minha vida toda noite pra trazer comida pras crianças que eu resgatei ao longo desse tempo. Não só ele. Nove outras, Sr. Caruso. Nove crianças que quase morreram por causa de decisões tomadas por gente como o senhor.”
Eu olhei pra Gabriel, que tinha voltado a se sentar ao lado de uma menina pequena, ajeitando o cobertor dela com um cuidado que só se aprende cedo demais, quando a infância é interrompida cedo demais.
“Ele não sabe quem eu realmente sou”, eu disse, mais pra mim mesmo do que pra Beatrice.
“Ele sabe exatamente quem o senhor é”, ela corrigiu. “Eu nunca escondi isso dele. O que ele não sabe é se pode confiar no senhor.”
A pergunta ficou pairando no ar gelado da igreja, mais afiada do que qualquer ameaça que eu já tinha ouvido em vinte anos naquele mundo.
“E você, Beatrice? Você confia em mim?”
Ela olhou pra mim por um longo momento, calculando, como quem já tinha visto homens como eu prometerem proteção antes de trair tudo.
“Ainda não”, ela respondeu. “Mas eu vim trabalhar na sua cozinha há três meses justamente pra descobrir isso.”
