O menino ergueu os olhos devagar, na minha direção.

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Chapter 5

A caminhonete de transporte estava quase carregada — colchões, cobertores, as poucas coisas que dez crianças conseguiam chamar de própria — quando os faróis de dois carros apareceram na entrada da rua, avançando rápido demais pra ser coincidência.

“Beatrice.” Minha voz cortou o barulho da rua. “Carros.”

Ela olhou pra trás, e o rosto dela perdeu a cor. “Marcus Webb. E não está sozinho.”

Gabriel apertou minha mão sem que eu percebesse quando isso tinha começado a acontecer naturalmente entre nós.

“Papai, o que está acontecendo?”

“Fica perto de mim”, eu disse, ajoelhando na altura dele. “Aconteça o que acontecer, fica perto de mim ou da Beatrice.”

Lorenzo, que eu tinha chamado às pressas horas antes sem contar o motivo completo, saiu do segundo carro com dois homens armados, posicionando-se entre as crianças e a rua.

“Boss, quem são esses caras?”

“Homens da minha irmã”, eu respondi, a amargura da frase ainda estranha na minha própria boca.

Marcus Webb desceu do carro, as mãos visíveis, num gesto calculado de quem não queria começar um tiroteio com dez crianças por perto.

“Sr. Caruso”, ele disse, com uma calma profissional que só irritava mais. “Eu só vim buscar o garoto. Ordens da Sra. Caruso.”

“O garoto é meu filho, Webb. E você vai voltar pro carro agora, ou vai ter que explicar pra Vittoria por que não conseguiu completar o trabalho.”

“Ela disse que o senhor reagiria assim”, Webb disse, quase com pena na voz. “Também disse que, se isso acontecesse, eu deveria mostrar isso ao senhor.”

Ele segurou um celular, a tela virada pra mim.

Uma gravação de áudio começou a tocar — a voz de Vittoria, mais fria do que eu jamais tinha ouvido, conversando com alguém doze anos atrás: *”O incêndio precisa parecer completo. Nenhum sobrevivente. Ele é o único obstáculo entre mim e o que deveria ser meu.”*

Ouvir aquilo, em voz alta, na frente do próprio Gabriel, foi diferente de qualquer coisa que Beatrice tinha me contado na noite anterior.

“Por que você está me mostrando isso?”, perguntei, a voz perigosamente baixa.

“Porque eu tenho uma filha, Sr. Caruso”, Webb disse, baixando o celular. “E, quando ouvi essa gravação pela primeira vez, entendi exatamente o tipo de pessoa pra quem eu estava trabalhando. Eu vim aqui hoje pra avisar o senhor, não pra levar o garoto.”

O alívio que atravessou o corpo de Beatrice foi quase visível.

“Vittoria sabe que você está aqui?”, perguntei.

“Ela sabe que eu vim atrás do endereço. Não sabe que eu decidi mudar de lado no meio do caminho.” Webb olhou pro relógio. “Ela está a caminho pessoalmente. Vinte minutos, no máximo. Ela não confia mais em ninguém pra terminar isso além dela mesma.”

Vinte minutos.

Eu olhei pra Gabriel, pras outras nove crianças esperando dentro da caminhonete, pra Beatrice, que já estava reorganizando o plano de fuga na cabeça antes mesmo de eu terminar de processar a informação.

“Lorenzo, leve as crianças e a Beatrice pra Wisconsin agora. Sem parar em lugar nenhum.”

“E o senhor, boss?”

“Eu vou ficar. Vittoria vem atrás de mim de qualquer jeito, cedo ou tarde. Prefiro que seja aqui, longe delas, do que em qualquer lugar perto do Gabriel de novo.”

Beatrice segurou meu braço antes de eu conseguir me afastar.

“Doze anos, Sr. Caruso. Eu protegi esse menino sozinha por doze anos. Não vá fazer alguma bobagem heroica na última hora.”

“Eu não vou. Eu só vou garantir que ela nunca mais chegue perto dele.”

Gabriel me abraçou, rápido, forte, do jeito que só uma criança que quase perdeu o pai duas vezes sabe abraçar.

“Volta”, ele disse, simplesmente.

“Eu volto.”

A caminhonete desapareceu na esquina exatamente um minuto antes dos faróis de Vittoria aparecerem no fim da rua.

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