O menino ergueu os olhos devagar, na minha direção.

Written by

in

Chapter 4

Passei o resto daquela madrugada dentro da igreja abandonada, ouvindo Beatrice detalhar tudo o que ela sabia sobre a rede que Vittoria tinha montado pra encontrar Gabriel.

“Ela contratou um rastreador chamado Marcus Webb”, Beatrice disse. “Ex-policial, especializado em encontrar pessoas que não querem ser encontradas. Ele já identificou três abrigos clandestinos na região só nesse último mês, achando que Gabriel podia estar em algum deles.”

“E esse aqui?”

“Ainda não. Mas é questão de tempo.”

Eu passei a manhã seguinte fingindo normalidade dentro da minha própria mansão, sentado à mesa do café da manhã com Vittoria como fazia todo domingo havia doze anos, estudando cada gesto dela com olhos completamente diferentes.

Ela sorriu pra mim, do mesmo jeito de sempre.

“Você parece cansado, Alessandro”, ela disse, servindo café. “Dormiu mal?”

“Só pensando em negócios”, eu respondi, a voz mais controlada do que eu jamais pensei que conseguiria manter, sentado na frente da mulher que tinha ateado fogo na vida do meu filho.

Lorenzo entrou na sala de jantar naquele momento, o rosto tenso.

“Boss, preciso falar com o senhor. Em particular.”

Vittoria ergueu uma sobrancelha, mas não disse nada quando eu me levantei e segui Lorenzo até o corredor.

“Achei uma coisa estranha nos registros financeiros da Vittoria”, ele sussurrou. “Transferências mensais, há doze anos, pra uma conta que eu não consegui rastrear até agora. Descobri ontem à noite que o destinatário é um tal de Marcus Webb.”

Meu maxilar travou. “Ela está financiando a busca há quanto tempo?”

“Pelo visto, desde sempre. Mas os valores aumentaram muito nos últimos três meses.”

Exatamente quando Beatrice tinha começado a trabalhar na minha cozinha.

“Ela sabe que alguém está protegendo o Gabriel”, eu disse. “E está acelerando a busca porque sente que o tempo está acabando.”

Voltei pra sala de jantar com um controle que eu não sabia que ainda era capaz de exercer.

“Vittoria, preciso da sua ajuda com uma coisa amanhã à noite. Uma reunião importante, fora da cidade.”

“Claro”, ela respondeu, sem hesitar, sem desconfiar de nada. “O que você precisar.”

Aquela facilidade em mentir — a mesma facilidade que ela devia ter usado doze anos atrás, segurando minha mão num funeral fingido — me deu a certeza final de que Beatrice estava certa.

Naquela noite, voltei à igreja com um plano.

“Vamos precisar tirar todas as crianças daqui”, eu disse a Beatrice. “Hoje. Antes que Marcus Webb chegue perto o suficiente.”

“Pra onde?”

“Tenho uma propriedade em Wisconsin que nem Vittoria conhece. Segurança própria, gente de confiança, ninguém ligado à organização principal.”

Beatrice estudou meu rosto por um longo momento. “Por que eu deveria confiar que essa ‘propriedade segura’ não é só outro lugar pra manter o Gabriel sob seu controle?”

“Porque, Beatrice, eu passei doze anos achando que enterrei meu filho. Eu não vou colocar ele em risco de novo só pra provar um ponto de controle. Eu só quero que ele esteja vivo.”

Ela assentiu, devagar, ainda com cautela, mas com algo próximo de confiança começando a se formar.

“Tudo bem. Mas eu vou com eles. E, se alguma coisa parecer errada, eu tiro todos daquele lugar antes mesmo do senhor perceber o que aconteceu.”

“Combinado.”

O que nenhum dos dois sabia era que Marcus Webb já tinha rastreado o carro de Beatrice até três quarteirões da igreja naquela mesma tarde, e que Vittoria já sabia, havia horas, exatamente onde procurar.

← Capítulo AnteriorPróximo Capítulo →

Lista de Capítulos