Chapter 3
Naquela noite, Beatrice me contou parte da própria história — o suficiente pra eu entender por que ela tinha conseguido derrubar dois homens num beco escuro sem pestanejar.
“Eu cresci dentro desse mundo”, ela disse, sentada num banco de madeira rachado, os olhos fixos nas crianças adormecidas. “Meu pai trabalhava pra uma organização rival à sua, décadas atrás. Ele me ensinou a lutar antes de me ensinar a andar de bicicleta. Quando ele morreu, eu tinha dezesseis anos e já sabia mais sobre como sobreviver nesse mundo do que a maioria dos homens armados que trabalham pro senhor.”
“E como você foi parar naquele galpão, há doze anos?”
“Eu trabalhava como faxineira disfarçada pra outra organização, coletando informação. Fui mandada pra confirmar um incêndio ‘acidental’ que, na verdade, tinha sido encomendado. Encontrei Gabriel vivo por puro acaso — ele tinha se escondido num compartimento que ninguém tinha verificado direito.”
“E você simplesmente… o levou embora.”
“Eu simplesmente não consegui deixar uma criança morrer pra manter a mentira de outra pessoa.” Ela olhou pra mim, direta. “Depois disso, eu não conseguia mais fazer o trabalho que fazia antes. Comecei a resgatar outras crianças, uma de cada vez, sempre que descobria que alguma organização tinha decidido que uma vida pequena valia menos que um segredo grande.”
“Nove crianças em doze anos.”
“Dez, contando o Gabriel.”
Eu fiquei olhando pras crianças dormindo, tentando processar o tamanho da operação silenciosa que aquela mulher tinha mantido, sozinha, debaixo do nariz de organizações inteiras.
“Por que voltar agora? Por que aparecer na minha cozinha depois de doze anos escondendo meu filho de mim?”
Beatrice hesitou antes de responder.
“Porque, três meses atrás, eu descobri que a pessoa que mandou incendiar aquele galpão está prestes a descobrir que Gabriel está vivo. E, se isso acontecer antes de eu conseguir garantir a segurança dele, ela vai terminar o que começou há doze anos.”
Meu sangue gelou. “Como você sabe disso?”
“Porque eu ainda tenho contatos dentro da organização dela. E porque essa pessoa está mais perto do senhor do que imagina, Sr. Caruso.”
“Me dê o nome, Beatrice. Agora.”
Ela olhou pra mim, e, pela primeira vez naquela noite, vi hesitação genuína nos olhos dela — não medo de mim, mas medo do que aconteceria depois que ela dissesse aquela palavra em voz alta.
“Vittoria Caruso.”
O nome caiu como um soco no peito.
Minha própria irmã.
“Isso é impossível”, eu disse, a voz falhando pela primeira vez em anos. “Vittoria chorou no funeral do Gabriel. Eu me lembro dela segurando minha mão.”
“Ela chorou porque sabia que precisava parecer convincente”, Beatrice disse, sem suavizar a verdade. “Sr. Caruso, seu filho era o herdeiro direto da organização. Enquanto ele estivesse vivo, Vittoria nunca teria acesso ao controle que ela sempre quis. Um incêndio ‘trágico’ resolveu esse problema de um jeito que ninguém jamais questionaria.”
Eu me lembrei de cada reunião nos últimos doze anos em que Vittoria tinha se sentado ao meu lado, aconselhando, sorrindo, consolando — enquanto sabia, o tempo todo, que meu filho estava vivo em algum lugar da cidade, e que ela tinha sido a responsável pela mentira que quase o matou.
“Ela ainda está atrás dele”, eu disse, mais uma afirmação do que pergunta.
“Um dos meus contatos me avisou, há três dias, que Vittoria contratou alguém pra rastrear organizações que ajudam crianças desaparecidas em Chicago. Ela está perto de encontrar esse lugar, Sr. Caruso. Talvez em questão de dias.”
Olhei pra Gabriel dormindo, a respiração tranquila de uma criança que ainda não sabia o tamanho real do perigo que se aproximava.
“Então nós não temos dias”, eu disse. “Nós temos horas.”
