Chapter 2
A escada rangeu sob os meus pés, mesmo com o tapete grosso.
Margaret ia na frente, sem olhar pra trás.
— Algumas regras — ela disse, sem parar de andar. — Nunca entre sem bater. Nunca toque nas coisas dele sem pedir. E nunca, em hipótese nenhuma, mencione o nome da mãe dele.
— Ninguém me contou o nome da mãe dele.
— Ótimo. Continue assim.
Chegamos ao corredor escuro que eu tinha visto lá de baixo.
Só uma porta no fim dele.
Fechada.
Margaret bateu duas vezes, com os nós dos dedos, e esperou.
— Entra — disse a mesma voz de antes.
Baixa.
Sem pressa.
Do tipo que não precisa ser alta pra ser obedecida.
O quarto era grande, mas parecia menor por causa das cortinas fechadas.
Um homem estava sentado numa poltrona de couro perto da lareira, e não na cama, o que já me disse alguma coisa sobre o tipo de paciente que eu tinha pela frente.
Ele não usava pijama.
Camisa preta, mangas dobradas até o cotovelo, um curativo enfaixado no antebraço direito.
Os olhos dele encontraram os meus antes que eu terminasse de entrar.
— Você é a quinta — ele disse.
— Eu sei.
— Sabe por quê?
— Ainda não. Mas pretendo descobrir antes de virar a sexta história pra alguém contar.
Alguma coisa passou pelo rosto dele.
Não foi um sorriso.
Foi mais rápido que isso, e sumiu antes de eu ter certeza de ter visto.
— Damian Blackridge — ele disse, como se estivesse me testando, não se apresentando.
— Clare Hensley.
— Eu sei o seu nome. Estava no relatório da agência, junto com uma nota dizendo que você não desiste fácil.
— A Donna exagera.
— A Donna não exagera nunca. Foi por isso que eu pedi ela pessoalmente.
Coloquei minha bolsa numa cadeira, devagar, sem perguntar se podia.
Ele reparou.
Não disse nada.
— Vou precisar checar seus sinais vitais — falei. — E dar uma olhada nesse curativo.
— As outras enfermeiras também precisaram.
— E o que aconteceu com elas?
— Uma delas achou que meu silêncio significava fraqueza.
— E as outras três?
Ele olhou pro fogo antes de responder.
— Fizeram perguntas demais sobre coisas que não eram da conta delas.
— E se eu fizer a pergunta certa, em vez de perguntas demais?
Ele olhou pra mim de novo, mais devagar dessa vez.
— Depende da pergunta.
Peguei o estetoscópio.
— Por que o curativo do seu braço está mais fresco do que deveria, se a ferida é de três semanas atrás?
O silêncio que se seguiu durou tempo suficiente pra eu contar as batidas do relógio na parede.
— Interessante — ele disse, por fim.
— Não foi resposta.
— Foi a única que você vai ganhar hoje.
Aproximei-me pra medir a pressão dele.
De perto, dava pra ver o que a distância escondia: olheiras fundas, mas o pulso firme, forte demais pra alguém que, segundo o prontuário, mal conseguia se levantar sozinho duas semanas atrás.
— Seu pulso está bom — falei, tentando manter a voz neutra.
— É um problema?
— Só se o prontuário estiver certo.
Ele não respondeu.
Mas os olhos dele não saíram dos meus enquanto eu terminava o curativo.
Quando acabei, guardei minhas coisas e caminhei até a porta.
— Enfermeira Hensley.
Parei.
— A garota que você viu lá embaixo. Não pergunte sobre ela pra mais ninguém nessa casa.
— Por quê?
— Porque a próxima pessoa que perguntar sobre ela pode não ter a sorte de só ser demitida.
Saí do quarto com o coração batendo mais rápido do que eu queria admitir.
No corredor, encontrei Margaret parada, esperando, como se soubesse exatamente quanto tempo minha primeira visita duraria.
— E então? — ela perguntou.
— O curativo dele é novo demais pra uma ferida de três semanas.
O rosto de Margaret não se moveu.
Mas os dedos dela se fecharam com mais força ao redor do bloco de anotações que carregava.
— Você tem uma noite pra descansar — ela disse, ignorando o que eu tinha acabado de falar. — Amanhã você começa oficialmente o turno.
Ela se virou pra ir embora.
— Margaret.
Ela parou.
— Quem estava cuidando dele antes de mim?
Pela primeira vez desde que eu tinha entrado naquela casa, alguma coisa parecido com medo passou pelos olhos dela.
— Ninguém que ainda trabalhe aqui — ela respondeu, e desceu a escada sem olhar pra trás.
