O porta-retrato se estilhaçou antes mesmo de eu conhecer meu paciente.

Written by

in

Chapter 5

O laudo estava escondido dentro da capa de um livro de contabilidade antigo, na estante da biblioteca do primeiro andar.

Eu tinha encontrado por acaso, três dias antes, procurando qualquer coisa que ligasse os nomes das receitas às pessoas certas.

Levei o livro até o quarto de Damian naquela mesma noite.

Ele leu em silêncio, página por página, o maxilar cada vez mais duro.

— Isso diz que o carro da minha mãe foi inspecionado antes do acidente — ele disse, por fim. — E que os freios já mostravam sinais de manipulação.

— E que esse laudo nunca chegou à polícia.

— Quem tinha acesso a esse carro na noite anterior?

— O nome está na última página.

Ele virou a página.

A mão dele parou no ar.

— Margaret assinou a ordem de manutenção do veículo.

— E assinou também, um mês atrás, a última alteração no seu tratamento.

Ele fechou o livro devagar, como se tivesse medo de que as palavras saíssem dele se abrisse de novo.

— Ela estava na minha vida desde antes de eu nascer — ele disse, quase pra si mesmo. — Cuidou de mim quando era criança. Cuidou da minha mãe.

— Às vezes as pessoas mais próximas são as que têm mais a perder quando alguém decide mudar.

— Mudar o quê?

— Você disse que, depois da morte da sua mãe, você nunca mais foi o mesmo. E se isso não foi só dor? E se foi exatamente o que ela queria?

Ele passou a mão pelo rosto, devagar.

— Ela sempre dizia que eu era descuidado demais pros negócios da família. Que minha mãe me protegia demais.

— E depois que sua mãe morreu?

— Margaret assumiu o controle de quase tudo. Disse que era temporário. Que era só até eu “melhorar”.

— Nove anos não é temporário.

Ele olhou pra mim, e pela primeira vez desde que nos conhecemos, vi medo de verdade nos olhos dele.

Não medo de Margaret.

Medo de ter confiado nela por tanto tempo sem perceber.

— Ela sabe que estamos perto — falei. — Hoje de manhã ela me ameaçou.

— Então não temos muito tempo.

— O que você vai fazer?

Ele se levantou e foi até a escrivaninha, abrindo uma gaveta trancada.

De dentro, tirou uma chave pequena, de metal escuro.

— Vou fazer o que devia ter feito há nove anos — ele disse. — Vou olhar pra essa casa com os próprios olhos, em vez de deixar que alguém olhasse por mim.

— Damian, seja cuidadoso. Se ela perceber que você sabe…

— Ela já vai perceber, de um jeito ou de outro.

Ele guardou o livro de contabilidade dentro do próprio casaco.

— Preciso que você fique perto de mim amanhã de manhã, quando eu chamar todo mundo pra biblioteca.

— Por quê?

— Porque a Margaret nunca vai admitir nada na frente de uma pessoa. Mas na frente de duas, e com provas na mesa, ela não vai ter escolha.

Naquela noite, nenhum de nós dois dormiu.

← Capítulo AnteriorPróximo Capítulo →

Lista de Capítulos