Chapter 4
Passaram-se dez dias antes que Margaret percebesse que eu estava investigando.
Eu tinha cuidado — copiava trechos do prontuário à mão, à noite, em vez de fotografar; guardava as anotações num caderno pessoal, não no computador da casa.
Mas cuidado nunca é suficiente numa casa onde alguém sempre está olhando.
Na manhã do décimo primeiro dia, Margaret me chamou até o escritório dela no primeiro andar.
Era uma sala pequena, sem janelas, com um cofre embutido na parede atrás da mesa.
— Sente-se — ela disse.
Sentei.
— Você tem sido muito atenciosa com o prontuário do Sr. Blackridge.
— É meu trabalho.
— É seu trabalho cuidar dele. Não reescrever a história médica dele.
— Eu não reescrevi nada.
— Ainda não.
Ela abriu uma gaveta e colocou uma pasta sobre a mesa, entre nós.
— Preciso que você assine uma atualização no prontuário. Ajustando as doses anteriores de anticoagulante pra parecerem consistentes com o diagnóstico original.
— Isso seria falsificar um documento médico.
— Isso seria proteger essa família de um escândalo desnecessário.
— Que escândalo?
Margaret cruzou as mãos sobre a mesa.
— O Sr. Blackridge tem inimigos, Clare. Homens que adorariam usar qualquer inconsistência médica pra provar que ele está fraco demais pra continuar no comando dos negócios.
— Ou alguém dentro dessa casa quer que ele continue fraco de verdade.
O rosto de Margaret não mudou, mas os olhos dela ficaram mais duros.
— Tome cuidado com as teorias que você escolhe acreditar.
— Não é teoria. São datas e assinaturas.
— Assine o documento.
— Não vou assinar.
Ela ficou em silêncio por um momento, me observando como quem reavalia um plano.
— As outras enfermeiras que ficaram pouco tempo aqui… você já se perguntou o motivo real?
— Você está me ameaçando?
— Estou te avisando. É diferente.
Levantei-me da cadeira.
— Vou informar ao Sr. Blackridge sobre essa conversa.
— Ele já sabe como as coisas funcionam nessa casa.
— Então ele vai saber que eu me recusei a fazer parte disso.
Saí do escritório com as pernas tremendo, mas a cabeça firme.
Subi direto pro quarto de Damian.
Ele estava sentado à mesa, olhando um mapa da cidade com marcações em vermelho.
Fechou o mapa assim que me viu entrar.
— Margaret quer que eu falsifique seu prontuário — falei, sem rodeios.
Ele não pareceu surpreso.
— Ela pediu isso pra você também? — perguntei.
— Ela nunca precisou pedir. Ela sempre agiu por conta própria, achando que sabia o que era melhor pra mim.
— Desde quando?
— Desde que minha mãe morreu.
— Damian, e se a morte da sua mãe não tiver sido um acidente?
Ele ficou imóvel por tanto tempo que cheguei a pensar que não tinha me ouvido.
— Por que você está dizendo isso?
— Porque encontrei uma coisa no arquivo antigo, escondida atrás dos exames recentes. Um laudo de acidente que nunca foi entregue à polícia.
Ele se levantou tão rápido que a cadeira quase caiu.
— Onde está esse laudo agora?
— Guardado. Em lugar seguro.
— Me mostre.
— Vou mostrar. Mas primeiro preciso que você entenda uma coisa.
— O quê?
— Se eu estiver certa sobre quem está por trás disso, essa pessoa já devia saber que eu estou perto demais.
