O porta-retrato se estilhaçou antes mesmo de eu conhecer meu paciente.

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Chapter 3

Eu não dormi direito na primeira noite em Blackridge Estate.

O quarto que me deram ficava no segundo andar, longe do corredor de Damian, mas perto o suficiente pra eu ouvir passos às vezes, tarde da noite, indo e vindo por um corredor que eu ainda não conhecia.

Na manhã seguinte, comecei pelo prontuário.

Era grosso.

Páginas e mais páginas de anotações de enfermagem, receitas, exames.

Levei duas horas pra perceber o primeiro problema.

As doses de anticoagulante estavam altas demais pra alguém que, segundo os próprios exames, não tinha risco de coágulo.

Doses altas demais, por tempo demais, sem justificativa clara.

Isso não cura.

Isso enfraquece.

Fui até a cozinha buscar café e encontrei Victor pela primeira vez.

Ele era alto, bem vestido, com o tipo de sorriso que parece ensaiado na frente do espelho.

— Você deve ser a nova enfermeira — ele disse, sem se levantar da mesa.

— Clare.

— Victor. Cuido dos negócios da família enquanto o Damian está… indisposto.

A palavra saiu devagar, como se ele gostasse do som dela.

— Há quanto tempo ele está “indisposto”?

— Nove anos, mais ou menos. Desde que a mãe dele morreu.

— O que aconteceu com ela?

Victor parou de mexer o café.

— Acidente de carro. Estrada molhada, curva fechada. Muito trágico.

— Ele estava no carro?

— Não. Mas ele nunca mais foi o mesmo depois disso.

Alguma coisa na forma como ele disse aquilo não combinava com tristeza de verdade.

Combinava mais com um roteiro decorado.

— Você trabalha com o prontuário médico dele? — perguntei, tentando soar casual.

— Às vezes assino algumas autorizações. Por que a pergunta?

— Curiosidade profissional.

Ele sorriu de novo, aquele sorriso ensaiado.

— Cuidado com curiosidade profissional demais por aqui, Clare. Faz mal pra saúde.

Ele saiu da cozinha antes que eu pudesse responder.

À tarde, voltei ao quarto de Damian pra trocar o curativo.

Dessa vez ele estava de pé, olhando pela fresta da cortina fechada.

— Você conheceu o Victor — ele disse, sem se virar.

— Como você sabe?

— Porque você está com a mesma cara que todo mundo fica depois.

— Que cara é essa?

— A cara de quem percebeu que algo não fecha, mas ainda não sabe o quê.

Aproximei-me pra trocar o curativo do braço dele.

— Seus exames de sangue mostram um anticoagulante em dose alta há meses. Isso não bate com o motivo oficial do seu tratamento.

Ele ficou em silêncio por um tempo longo.

— Quem mais viu esses exames?

— Só eu, até agora.

— Mantenha assim.

— Não posso ignorar isso se for perigoso pra sua saúde.

— Não estou pedindo pra ignorar. Estou pedindo tempo.

— Tempo pra quê?

Ele finalmente se virou pra me encarar.

— Pra descobrir quem está assinando essas receitas em meu nome.

O silêncio depois daquilo foi diferente de todos os outros silêncios daquela casa.

Era o silêncio de duas pessoas que, sem dizer em voz alta, tinham acabado de decidir confiar uma na outra por causa da mesma dúvida.

— Você vai me ajudar? — ele perguntou, e pela primeira vez a voz dele não tinha aquele controle frio de antes.

— Ainda não sei quem está fazendo isso.

— Nem eu.

— Mas eu sei ler prontuário. E o seu está cheio de assinaturas que eu preciso comparar.

Ele assentiu devagar.

— Comece pela Margaret.

— Ela cuida de você há quanto tempo?

— Desde antes da minha mãe morrer.

Alguma coisa gelada desceu pela minha espinha.

— Ela tem acesso total ao seu tratamento?

— Ela tem acesso total a tudo nessa casa.

Naquela noite, tranquei a porta do meu quarto pela primeira vez desde que cheguei.

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