Chapter 3
No carro, nenhum dos dois falou por dez minutos inteiros.
Chicago passava pela janela em borrões de luz amarela, e eu podia sentir a tensão saindo do corpo de Dominic em ondas quase visíveis.
“Você prometeu,” eu disse, por fim.
Ele manteve os olhos na estrada.
“Eu sei.”
“Então fala.”
Dominic suspirou, um som cansado, mais velho do que a idade dele.
“Adrian e eu crescemos juntos. Antes das famílias, antes dos negócios, antes de tudo isso.” Ele fez uma pausa. “Éramos irmãos de criação. O pai dele trabalhava pro meu pai.”
“E o que aconteceu?”
“Meu pai descobriu que o pai dele estava roubando da organização. Anos de desvios, escondidos.” A voz dele ficou mais baixa. “Meu pai mandou executar o pai dele. E me obrigou a assistir, pra aprender lição de lealdade.”
Eu senti o estômago revirar.
“Você tinha quantos anos?”
“Dezenove. Adrian tinha dezoito.”
“E ele nunca te perdoou.”
“Ele acha que eu poderia ter impedido. Que eu escolhi meu pai em vez de escolher ele.” Dominic finalmente olhou pra mim, no sinal vermelho. “Talvez ele tenha razão.”
Chegamos em casa em silêncio.
Dona Alvarez já tinha ido embora havia horas; a mesa que eu tinha arrumado ainda estava lá, intocada, o risoto frio, as velas apagadas sozinhas.
Dominic olhou pra mesa por um longo momento.
“Você fez tudo isso pra mim.”
“Fiz.”
“E eu estraguei.”
“Estragou.”
Ele passou a mão pelo rosto, um gesto cansado que eu nunca tinha visto nele antes.
“Claire, o que eu disse hoje no escritório…”
“Foi verdade?”
“Foi covardia.”
Eu esperei.
“Eu não te quero como esposa porque eu não mereço querer,” ele disse, a voz rouca. “Meu pai destruiu a família de Adrian na minha frente pra me ensinar que amor é fraqueza. Passei quinze anos aprendendo aquilo direitinho. E quando você chegou aqui, gentil, tentando, eu só… sabia fazer uma coisa: te afastar antes que você virasse mais uma pessoa que eu decepciono.”
Alguma coisa dentro de mim quebrou de um jeito diferente daquela noite.
“Isso não é desculpa pra como você me tratou.”
“Eu sei.”
“Oito meses, Dominic. Oito meses de portas fechadas e silêncio.”
“Eu sei.”
“Eu não sou seu pai. E você não precisa virar ele.”
Ele me olhou como se aquela frase tivesse acabado de abrir um buraco em alguma parede que ele vinha construindo havia anos.
“Adrian vai usar isso,” ele disse, mudando de assunto, a voz endurecendo de novo. “Ele vai tentar chegar em você pra me atingir.”
“Então me conta as coisas antes dele contar.”
Dominic hesitou.
“Tem mais uma coisa,” ele disse. “Sobre o seu pai.”
Meu sangue gelou.
“O que tem meu pai?”
Ele abriu a boca pra responder — e foi quando o celular dele tocou, alto, cortando o silêncio da casa toda.
Ele olhou pro visor, e o rosto dele perdeu toda a cor.
“É Adrian,” ele disse.
