Chapter 6
Os meses seguintes trouxeram uma adaptação gradual à minha nova vida, aprendendo os ritmos daquela casa enorme, o funcionamento complexo dos negócios de Luca, e principalmente, conhecendo o homem por trás da reputação que tanto o precedia.
Vittorio continuou testando os limites daquele casamento repetidas vezes, criando pequenas provocações e desafios que Luca enfrentava com uma paciência calculada que eu aprendi a admirar profundamente.
Numa tarde particularmente tensa, depois de descobrirmos que Vittorio tinha tentado subornar um dos fornecedores principais da família, encontrei Luca no escritório, a frustração visível em cada movimento tenso.
— Ele nunca vai parar, vai? — perguntei, me aproximando por trás e colocando as mãos nos ombros largos dele.
— Não até perceber que não vai conseguir o que quer — Luca respondeu, relaxando ligeiramente sob meu toque.
— Então talvez seja hora de mostrar a ele, de uma vez por todas, que esse casamento não é fraqueza que ele pode explorar.
Luca se virou, curioso.
— O que você tem em mente?
Nas semanas seguintes, trabalhamos juntos numa estratégia que combinava a experiência dele nos negócios da família com uma perspectiva nova que eu trazia de fora daquele mundo: expor publicamente as tentativas de suborno de Vittorio, aliando-se a outras famílias que também tinham sofrido com as manobras dele ao longo dos anos.
O plano funcionou melhor do que esperávamos.
Isolado e desacreditado entre seus próprios aliados, Vittorio finalmente recuou, reconhecendo, embora relutantemente, que tinha subestimado tanto Luca quanto a mulher que ele tinha escolhido para se casar.
Numa noite tranquila, meses depois de toda aquela turbulência ter finalmente se acalmado, encontrei Luca na cozinha, tentando desajeitadamente seguir uma receita de bolo que eu tinha deixado anotada na bancada.
— O que você está fazendo? — perguntei, rindo ao ver farinha espalhada por toda parte.
— Tentando aprender a fazer o bolo que você faz para os clientes — ele respondeu, um pouco envergonhado. — Achei que seria um gesto bonito.
— Você, o temido chefão Luca Moretti, tentando fazer um bolo de casamento.
— Só para minha própria esposa. Isso não conta como perder a reputação, conta?
Ri, me aproximando para ajudá-lo a consertar a massa claramente errada que ele tinha preparado.
— Sabe — falei, enquanto misturávamos os ingredientes juntos — quando cheguei aqui, eu esperava encontrar um monstro. Encontrei um homem que faz bagunça na cozinha tentando ser romântico.
— As pessoas realmente esperavam um monstro?
— Cinco mulheres antes de mim aparentemente sim. A perda delas, meu ganho.
Ele riu, aquele som raro e genuíno que eu tinha aprendido a provocar cada vez com mais frequência ao longo dos meses.
— Sem arrependimentos? — ele perguntou, ecoando a mesma pergunta que Elena tinha feito meses atrás, embora ele provavelmente não soubesse disso.
— Nenhum — respondi, com uma certeza absoluta que preenchia cada parte de mim. — Tropecei na minha própria mala, agarrei sua camisa, e de alguma forma encontrei exatamente onde eu deveria estar.
Ele se inclinou, encostando a testa na minha, farinha ainda grudada nas mãos dele, o bolo esquecido completamente na bancada.
— Eu também não tenho nenhum — ele sussurrou. — Obrigado por ser a primeira mulher que não fugiu.
— Obrigada por ser o primeiro homem que valia a pena ficar.
E ali, na cozinha bagunçada daquela mansão que um dia me pareceu assustadora demais para ser chamada de lar, cercada de farinha, risadas e um amor que nenhum de nós dois esperava encontrar num casamento arranjado por dívida, me peguei pensando: quantas vezes a gente já julgou um livro inteiro pela capa, perdendo a chance de descobrir a história incrível escondida dentro dele?
