Só pedi para um estranho me abraçar por um segundo, depois que meu namorado terminou nosso relacionamento de três anos numa mensagem de voz de quarenta segundos, no aeroporto JFK

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Chapter 2

A sala de reunião pareceu encolher ao redor de mim.

Doze pessoas estavam sentadas naquela mesa de vidro, todas com pastas abertas, todas esperando minha apresentação sobre estratégias de expansão de mercado. E ali, na cabeceira, o homem cujo terno eu tinha manchado de rímel três dias antes me olhava como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.

— Senhor Sterling — consegui dizer, a voz falhando de leve.

— Por favor — ele respondeu, um traço quase imperceptível de diversão na voz. — Continue. Estávamos ansiosos pra ouvir sua apresentação.

Passei a apresentação inteira tentando não olhar diretamente para ele, focando nos gráficos, nos números, em qualquer coisa que não fossem aqueles olhos cinzentos que pareciam guardar um segredo que só nós dois compartilhávamos.

Quando terminei, os outros executivos aplaudiram educadamente e começaram a recolher as próprias coisas. Sterling ergueu a mão.

— Eve, poderia ficar um minuto? Gostaria de discutir alguns pontos em particular.

Meu estômago revirou. A sala esvaziou rapidamente, cada pessoa evitando olhar diretamente para nenhum de nós dois — como se todo mundo ali já soubesse de algo que eu ainda estava processando.

Quando a porta se fechou, o silêncio ficou pesado.

— Eu deveria começar pedindo desculpas — eu disse, finalmente. — Pela cena no aeroporto. Isso foi completamente inapropriado, e eu não fazia ideia de quem você era.

— Não precisa se desculpar. — Ele se recostou na cadeira, estudando meu rosto com uma atenção que me deixou desconfortável. — Foi a primeira vez em anos que alguém me tratou como uma pessoa, e não como o Senhor Sterling da Sterling Capital.

— Isso é… triste, na verdade.

Um lampejo de surpresa cruzou o rosto dele, como se ninguém tivesse dito aquilo em voz alta antes. — É a verdade, ao menos.

— Sobre o trabalho… — comecei, tentando trazer a conversa de volta pra terreno profissional. — Fui informada que essa apresentação decidiria se eu seria contratada pra liderar o projeto de expansão em Chicago.

— Você foi contratada.

— Antes mesmo de eu terminar a apresentação?

— Sua apresentação foi excelente. Mas, sinceramente, eu já tinha decidido antes de você entrar nessa sala.

Senti um nó no estômago. — Por causa do aeroporto.

— Não do jeito que você está pensando. — Ele se levantou, caminhando até a janela que dava vista para o horizonte de Boston. — Analisei seu currículo antes mesmo de saber quem você era. Você é qualificada, Eve. Extremamente qualificada. O aeroporto só… confirmou uma intuição que eu já tinha sobre o tipo de pessoa que você é.

— E que tipo de pessoa seria essa?

Ele se virou, os olhos cinza fixos nos meus. — Alguém real. Algo raro demais no meu mundo.

O clima na sala mudou, ficou carregado demais para conforto. Percebi que precisava sair antes que dissesse ou fizesse alguma coisa da qual me arrependeria.

— Obrigada pela oportunidade, Senhor Sterling. Vou me esforçar pra corresponder à confiança.

— Marcus.

— Desculpa?

— Meu nome é Marcus. — Um sorriso pequeno, quase tímido, tocou o canto da boca dele. — Já que você viu meu lado menos… profissional, acho justo que use meu primeiro nome, ao menos em particular.

Saí daquela sala com as pernas tremendo, o coração acelerado de um jeito que não tinha nada a ver com nervosismo profissional.

Nas semanas seguintes, o novo emprego consumiu praticamente toda minha energia. Chicago era um projeto ambicioso — expandir a presença da Sterling Capital num mercado historicamente resistente a investidores de fora. Eu trabalhava até tarde, revisando contratos, reunindo com parceiros locais, tentando provar que merecia a confiança que Marcus tinha depositado em mim.

Ele aparecia ocasionalmente, sempre profissional, sempre mantendo distância cuidadosa em público. Mas nas raras vezes que ficávamos sozinhos — revisando documentos tarde da noite, ou esperando um elevador vazio — havia uma tensão elétrica entre nós que nenhum dos dois mencionava em voz alta.

Foi numa dessas noites tardias, revisando contratos no escritório dele, que finalmente perguntei o que vinha me corroendo desde o aeroporto.

— Posso te perguntar uma coisa pessoal?

Ele ergueu os olhos dos papéis. — Pode.

— No aeroporto. Você parecia… quebrado. Antes mesmo de eu me aproximar. Aconteceu alguma coisa naquele dia?

O rosto de Marcus se fechou momentaneamente, uma sombra passando pelos olhos cinza. — Aquele era o aniversário de morte da minha esposa. Ela morreu há três anos. Câncer.

Senti o chão sumir sob meus pés. — Eu não fazia ideia. Sinto muito.

— Eu estava indo visitar o túmulo dela quando você me abraçou. — Ele fechou os olhos por um segundo, como se a lembrança ainda doesse fisicamente. — Nos últimos três anos, ninguém tinha me tocado com afeto genuíno. Todo mundo ao meu redor mantém distância profissional, com medo de ultrapassar limites. Você não sabia quem eu era, então simplesmente… precisou de conforto, e eu, sem perceber, precisava dar isso tanto quanto você precisava receber.

As palavras dele pousaram entre nós, pesadas e verdadeiras.

— Foi por isso que você me contratou, não foi? Não pela minha qualificação profissional. Foi porque eu representava a única conexão humana real que você teve em anos.

— Contratei você porque você é competente, Eve. — Ele se levantou, se aproximando. — Mas continuo te procurando porque, desde aquele dia no aeroporto, não consigo parar de pensar em como seria simples estar perto de alguém que não quer nada de mim além de companhia genuína.

Ficamos parados, perto demais para ser apropriado num ambiente profissional, longe o suficiente para que nenhum dos dois cruzasse a linha completamente.

Foi Marcus quem recuou primeiro, a máscara profissional voltando ao lugar como uma armadura bem treinada.

— Você deveria ir para casa. É tarde.

Assenti, recolhendo minhas coisas em silêncio, sentindo o peso do que quase tinha acontecido entre nós pairando no ar como eletricidade estática.

Nenhum de nós dois sabia, naquele momento, que alguém observava aquela cena através das câmeras de segurança do escritório — uma mulher elegante, de cabelos loiros perfeitamente arrumados, sentada na sala de monitoramento com um sorriso frio nos lábios.

Victoria Sterling. A cunhada de Marcus, e a pessoa que administrava secretamente boa parte das operações internas da empresa desde a morte da esposa dele.

Ela pegou o celular e discou um número que não usava havia meses.

— Precisamos conversar — disse, a voz calma e calculista. — Marcus está cometendo o mesmo erro que cometeu com Diana. E dessa vez, eu não vou deixar isso acontecer de novo.

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