Chapter 3
Duas semanas se passaram desde aquela noite tensa no escritório, e Marcus tinha voltado a manter distância profissional cuidadosa — o suficiente para me deixar confusa sobre se tinha imaginado toda aquela conexão elétrica entre nós.
Foi numa manhã de quinta-feira que tudo mudou de novo.
Encontrei um bilhete na minha mesa, escrito à mão, letra angulosa e precisa: Jantar hoje às 20h. Endereço em anexo. Traje social. — M.
Passei o dia inteiro nervosa, questionando se aquilo era profissional ou pessoal, e concluindo que provavelmente era uma mistura perigosa dos dois.
O endereço levava a um restaurante particular, num andar alto de um prédio discreto, com vista para toda a cidade de Chicago iluminada. Marcus já estava lá quando cheguei, vestindo um terno diferente do habitual — mais casual, sem gravata, os primeiros botões da camisa abertos.
— Você veio — ele disse, se levantando quando me aproximei da mesa.
— Sua nota não deixou muita margem pra recusa.
— Eu queria conversar em particular. Longe do escritório, das câmeras, dos ouvidos que sempre parecem estar prestando atenção demais.
Sentei, sentindo o coração acelerar. — Sobre o quê?
— Sobre nós. — Ele serviu vinho pros dois, as mãos levemente tensas. — Eve, eu sei que isso é completamente inapropriado. Sou seu chefe. Você trabalha pra mim há apenas algumas semanas. Mas desde aquele dia no aeroporto, eu não consigo pensar em mais nada além de você.
— Marcus…
— Deixa eu terminar. — Ele respirou fundo. — Diana morreu há três anos, e desde então eu me tornei uma versão vazia de mim mesmo. Trabalho, decisões financeiras, reuniões — tudo mecânico, sem sentido real. Você foi a primeira pessoa em anos que me fez sentir como um ser humano de novo, mesmo sem saber quem eu era.
Senti lágrimas ameaçando se formar. — Eu também senti isso. Desde o aeroporto. Mas tenho medo, Marcus. Medo de que isso seja só… trauma se confundindo com atração. Medo de complicar meu trabalho, minha carreira.
— Eu entendo esse medo. — Ele segurou minha mão sobre a mesa. — E prometo que, se isso não der certo, seu emprego continua seguro. Você é boa demais no que faz pra eu deixar sentimentos pessoais interferirem na sua carreira.
— Isso é fácil de dizer agora.
— Eu sei. Por isso vou colocar por escrito, se for necessário. Vou garantir formalmente sua posição, independente do que acontecer entre nós.
Aquilo, de um jeito estranho, me deixou mais confortável para admitir o que vinha sentindo.
— Eu gosto de você, Marcus. Mais do que deveria, considerando que nos conhecemos há poucas semanas.
Um sorriso genuíno, o primeiro que vi completamente sem reservas, iluminou o rosto dele. — Isso é a coisa mais sincera que alguém me disse em anos.
O jantar continuou de um jeito que parecia quase normal — conversas sobre livros, viagens, memórias de infância, longe da formalidade corporativa que normalmente definia nossa relação. Descobri que Marcus tinha crescido em Ohio, filho de professores, e tinha construído o império financeiro sozinho, sem herança familiar significativa.
— Você mencionou uma cunhada — comentei, lembrando de algo que um colega tinha dito casualmente no escritório. — Victoria?
O rosto de Marcus escureceu ligeiramente. — Victoria é irmã da Diana. Assumiu um cargo executivo na empresa depois que Diana morreu — algo que pareceu certo na época, uma forma de manter a família próxima. Mas ultimamente, ela tem se tornado… complicada.
— Complicada como?
— Ela nunca superou a morte da Diana. E de alguma forma, decidiu que proteger a memória da minha esposa significa impedir que eu siga em frente com qualquer pessoa.
Um arrepio frio percorreu minha espinha, embora eu não soubesse exatamente por quê.
— Ela sabe sobre nós?
— Ainda não. Mas Victoria tem olhos em todo lugar dentro da empresa. Não vai demorar pra descobrir.
— Isso te preocupa?
Marcus hesitou por um momento longo demais para ser reconfortante. — Victoria pode ser implacável quando decide que algo ameaça o que ela considera importante. Já vi isso acontecer antes, com outras pessoas que se aproximaram de mim depois da Diana.
— O que aconteceu com essas pessoas?
— Carreiras arruinadas. Reputações destruídas com informações vazadas seletivamente. Victoria tem recursos e conexões suficientes pra tornar a vida de qualquer um miserável, se ela decidir que essa pessoa é uma ameaça.
O medo que eu sentia antes se transformou em algo mais concreto, mais palpável.
— E você acha que ela vai me ver como ameaça?
— Eu acho — Marcus disse, a voz séria — que você já é.
