Chapter 4
O primeiro sinal de problema chegou uma semana depois, disfarçado de gentileza.
Victoria Sterling apareceu no meu escritório sem aviso prévio, um sorriso perfeitamente calibrado no rosto, carregando duas xícaras de café.
— Eve, certo? — ela disse, entrando como se tivéssemos uma amizade de anos. — Achei que devíamos nos conhecer melhor, considerando que trabalhamos tão próximas agora.
— Claro, Victoria. É um prazer.
Ela se sentou, cruzando as pernas com elegância calculada, os olhos avaliando cada detalhe do meu escritório, da minha roupa, da minha postura.
— Você tem se saído impressionantemente bem no projeto de Chicago. Marcus fala muito bem de você.
Algo no jeito que ela disse o nome dele me deixou desconfortável. — Estou fazendo o possível.
— Sem dúvida. — Ela deu um gole no café, os olhos nunca saindo dos meus. — Sabe, Eve, eu conheci Diana desde criança. Éramos praticamente irmãs antes mesmo de ela se casar com Marcus.
— Deve ter sido muito difícil perdê-la.
— Foi devastador. Para todos nós. — Sua voz tremeu de um jeito que parecia genuíno, mas havia algo calculado por baixo. — Marcus mudou completamente depois disso. Fechou-se pro mundo. E eu jurei, no funeral dela, que protegeria a memória dela e garantiria que ninguém se aproveitasse do luto dele.
— Não tenho intenção nenhuma de me aproveitar de ninguém, Victoria.
— Tenho certeza que não tem. — Ela sorriu, mas o sorriso não alcançou os olhos. — Mas você deve entender minha preocupação. Você apareceu do nada, chorando no ombro dele num aeroporto, e três dias depois já estava sendo contratada pra um cargo importante. Algumas pessoas poderiam interpretar isso de formas menos generosas.
O ataque velado ficou pairando no ar entre nós.
— Fui contratada pelas minhas qualificações profissionais.
— Estou certa disso. — Victoria se levantou, alisando a saia do terno. — Só queria te conhecer melhor, Eve. E te avisar, como amiga, que Marcus é frágil de formas que talvez você não perceba ainda. Cuidado pra não quebrar o que resta dele.
Ela saiu, deixando um silêncio pesado e uma sensação inconfundível de ameaça mal disfarçada de preocupação.
Contei a Marcus naquela noite, durante um dos nossos jantares privados que tinham se tornado quase diários nas últimas semanas.
— Ela está tentando te intimidar — ele disse, a mandíbula tensa. — Sinto muito por isso.
— Ela mencionou Diana o tempo todo. Como se estivesse me culpando por algo que eu nem fiz ainda.
— Victoria nunca aceitou completamente que Diana escolheu se casar comigo em vez de continuar perseguindo a própria carreira que as duas planejavam construir juntas. Sempre houve um ressentimento silencioso ali, mesmo que ela nunca tenha admitido isso abertamente.
— Você acha que ela pode realmente fazer alguma coisa pra me prejudicar?
Marcus ficou em silêncio por um momento longo demais para ser reconfortante. — Victoria tem acesso a informações financeiras sensíveis da empresa. E, infelizmente, ela também tem histórico de vazar informações seletivamente quando sente que precisa “proteger” algo importante pra ela.
— Isso inclui informações sobre mim?
— Vou garantir que não.
Mas a promessa dele soou mais como esperança do que certeza.
Três dias depois, a ameaça se materializou de um jeito que nenhum de nós esperava.
Um e-mail anônimo circulou entre os principais executivos da Sterling Capital, contendo fotos — tiradas às escondidas — de Marcus e eu jantando juntos, de mãos dadas sobre a mesa, num momento claramente íntimo demais para ser apenas profissional.
O e-mail insinuava favoritismo, conflito de interesses, e questionava se minha promoção rápida tinha sido resultado de mérito ou de manipulação romântica.
Fui chamada à sala de reuniões do conselho na manhã seguinte, o coração martelando enquanto caminhava pelos corredores sob olhares curiosos e sussurros mal disfarçados.
— Precisamos discutir a natureza da sua relação com o Senhor Sterling — o presidente do conselho disse, sem rodeios, assim que sentei.
Marcus estava presente, o rosto uma máscara de fúria contida.
— Essa reunião é completamente desnecessária — ele disse, a voz cortante. — Minha vida pessoal não é assunto do conselho.
— Torna-se assunto do conselho quando envolve favoritismo na contratação e promoção de funcionários, Marcus. — O presidente ergueu as fotos impressas. — Essas imagens levantam questões sérias sobre a integridade do processo que trouxe a senhorita Eve para um cargo tão importante.
Senti o mundo desmoronar ao meu redor, exatamente como Victoria provavelmente tinha planejado.
