Chapter 2
O clique da arma ecoou pela cozinha, e todo o meu corpo se virou por instinto, a pistola já apontada.
Era Dominic.
Meu próprio chefe de segurança, parado na porta, a arma tremendo levemente na mão dele, os olhos fixos em Claire.
— Ela não é quem diz ser, Sr. Vale — Dominic disse, a voz tensa. — Ninguém contrata empregada que sabe tirar bala de gente desse jeito.
— Abaixa essa arma — rosnei.
— Ela pode ser uma ameaça.
— A única ameaça que estou vendo agora é você apontando arma na minha cozinha com minhas filhas por perto.
Dominic hesitou, mas obedeceu, abaixando a arma devagar, sem desviar os olhos de Claire.
Claire nem tinha se abalado. Continuava com os olhos fixos no ferimento de Ava, a voz calma como se nada tivesse acontecido.
— Harper, segura firme aqui — ela instruiu, guiando a mão trêmula da minha filha do meio pra pressionar uma gaze. — Isso, exatamente assim.
— Como você aprendeu a fazer isso? — perguntei, me aproximando devagar.
— Depois, Sr. Vale. Agora eu preciso fechar essa artéria antes que sua filha perca sangue demais.
A autoridade na voz dela era absoluta — o tipo de comando que eu só tinha ouvido de médicos de campo de batalha, ou de gente que já tinha visto guerra de perto.
Ava gemia baixinho, os olhos vidrados de dor.
— Vai doer um pouco agora, querida — Claire disse pra ela, gentil de novo, a transição entre as duas versões dela quase assustadora de tão suave. — Mas logo vai passar.
Ela deu o ponto final, cortou o fio com precisão cirúrgica, e só então ergueu os olhos pra mim.
— Ela vai ficar bem. A bala não atingiu nada vital. Mas precisa de antibiótico e repouso.
— Quem atirou nela? — perguntei, a voz baixa e perigosa.
Claire olhou pra Dominic, um segundo apenas, antes de responder.
— Isso é uma pergunta que o senhor devia fazer pros seus próprios homens, não pra mim.
Dominic empalideceu.
— Do que ela está falando? — exigi.
— Sr. Vale, eu juro que não sei de nada…
— A bala veio de uma arma calibre .40 — Claire interrompeu, tirando as luvas com um movimento seco. — O mesmo calibre que os homens do turno da noite usam. Alguém disparou dentro dessa casa, por acidente ou não, enquanto suas filhas estavam sozinhas na cozinha.
O silêncio que se seguiu foi pesado o suficiente pra cortar.
— Reúna todo o turno da noite — ordenei a Dominic. — Agora. Ninguém sai dessa propriedade até eu descobrir quem apertou o gatilho.
Dominic saiu correndo, o rosto ainda pálido.
Virei-me pra Claire, encarando-a de verdade pela primeira vez desde que a contratei.
— Quem é você?
Ela terminou de guardar os instrumentos numa bolsa de couro gasto que eu nunca tinha reparado antes, os movimentos precisos, econômicos.
— Sou a mulher que impediu sua filha de sangrar até a morte na sua própria cozinha, Sr. Vale. Por hoje, isso é tudo que precisa saber.
— Isso não é resposta suficiente.
— É a única que eu tenho pra dar agora.
Emma, ainda agarrada na saia de Claire, ergueu os olhos pra mim, e, pela primeira vez em três anos, ela falou de novo, sem que ninguém pedisse.
— Claire não machuca a gente, papai. Ela protege.
Meu peito apertou de um jeito que eu não sentia desde antes do carro-bomba.
— Como você sabe disso, Emma?
Minha filha só se aninhou mais fundo na saia de Claire, voltando ao silêncio de sempre, como se aquela única frase tivesse esgotado tudo que ela tinha coragem de dizer.
Olhei pra Claire, as perguntas se multiplicando na minha cabeça mais rápido do que eu conseguia organizar.
— Isso não acaba aqui — falei, a voz mais controlada agora, mas ainda tensa.
— Eu não esperava que acabasse, Sr. Vale.
Ela pegou a bolsa e caminhou até a pia, lavando as mãos com uma calma que parecia treinada, ensaiada mil vezes antes, em lugares que eu só podia imaginar.
E, enquanto a observava, uma certeza fria começou a crescer dentro de mim: a mulher discreta que eu tinha contratado seis semanas atrás nunca tinha existido de verdade.
