Voltar pra casa três dias antes deveria ter me dado vantagem sobre o traidor dentro da minha organização.

Written by

in

Chapter 4

Levei Claire até o escritório, trancando a porta atrás de nós, o coração batendo de um jeito que eu não sentia desde o dia do funeral de Rachel.

— Fala — ordenei, a voz mais rouca do que eu pretendia.

Claire se sentou, as mãos entrelaçadas no colo, finalmente parecendo cansada, como se carregasse um peso havia anos.

— Meu nome verdadeiro não é Claire Whitman.

— Imaginei que não fosse.

— Eu fui médica de campo, antes. Trabalhei em zonas de conflito, depois pra uma agência que o senhor não vai reconhecer o nome, porque ela nunca existiu oficialmente em lugar nenhum.

— E o que uma ex-agente secreta está fazendo trabalhando como empregada na minha casa?

— Fui designada, três anos atrás, pra investigar o atentado que matou sua esposa.

Meu peito se apertou com tanta força que doeu fisicamente.

— Isso não faz sentido. A investigação da polícia fechou o caso como ataque de um cartel rival.

— A polícia fechou. Minha agência, não.

Ela tirou um pequeno objeto do bolso da saia — um pingente de prata, gasto, que eu reconheceria em qualquer lugar do mundo.

O colar de Rachel.

Aquele que desapareceu com o corpo dela, nunca recuperado depois da explosão.

— Onde você conseguiu isso? — sussurrei, a voz falhando.

— Encontrei entre os pertences de um homem que capturamos há dois anos, ligado à fabricação da bomba que matou sua esposa. Ele não trabalhava pra nenhum cartel rival, Sr. Vale.

— Então pra quem ele trabalhava?

Claire hesitou, os olhos marejando de um jeito que parecia genuíno demais pra ser atuação.

— Pra alguém dentro da sua própria organização. Alguém que ainda está lá, disfarçado, esperando o momento certo pra terminar o que começou.

O mundo pareceu desabar ao meu redor.

— Você está me dizendo que o traidor de agora e o assassino de Rachel são a mesma pessoa?

— Estou dizendo que é a hipótese mais forte que temos. E que os documentos roubados do seu cofre provavelmente confirmariam isso, se ainda estivessem em nossas mãos.

Bati o punho na mesa, a raiva e a dor se misturando de um jeito insuportável.

— Por que você não me contou isso antes? Por que se infiltrar como empregada em vez de simplesmente me procurar?

— Porque, Sr. Vale, se o traidor está infiltrado tão fundo quanto eu suspeito, qualquer abordagem direta o alertaria antes de eu conseguir provas suficientes. Precisava estar perto. Observando. Sem levantar suspeitas.

— E minhas filhas? Você as usou também, como parte da sua missão?

Os olhos dela endureceram, pela primeira vez com raiva genuína.

— Nunca. Emma voltou a confiar em mim porque eu tratei ela como uma criança que precisava de segurança, não como uma peça num tabuleiro. Isso não foi calculado, Sr. Vale. Isso foi real.

Fiquei em silêncio, tentando processar tudo — a dor antiga se misturando com uma raiva nova, mais afiada.

— E agora? — perguntei, finalmente.

— Agora, com os documentos roubados, quem quer que seja o traidor sabe que estamos perto. Isso torna tudo mais perigoso. E mais urgente.

— Quem mais sabe que você está aqui investigando?

— Ninguém, na sua organização. Só minha agência, e mesmo assim, de forma limitada.

Encarei aquela mulher — cheia de cicatrizes, de segredos, de uma dor que parecia genuína demais pra ser fingida — e senti, pela primeira vez em três anos, algo além de raiva e luto.

Senti esperança.

— Então vamos descobrir juntos quem fez isso com Rachel — falei, a voz firme agora. — E dessa vez, ele não vai escapar.

← Capítulo AnteriorPróximo Capítulo →

Lista de Capítulos