Chapter 1
O porta-retrato se estilhaçou antes mesmo de eu conhecer meu paciente.
Passei pela garota que ele tinha acabado de demitir e pedi um termômetro.
Três semanas depois, o prontuário que queriam que eu alterasse revelaria quem estava tentando mantê-lo doente.
A garota tinha dezenove anos.
Eu me lembro disso porque dezenove é muito pouco pra já ter aprendido a chorar sem fazer barulho.
Ela estava parada no hall de mármore da Mansão Blackridge, um casaco verde-oliva meio abotoado nos ombros, a mochila apertada contra o peito e os dois olhos vermelhos de tanto chorar. A chuva de outubro batia nas janelas altas atrás dela. A casa tinha cheiro de cera de cedro, lã molhada e uma fumaça fraca de lareira vinda de algum lugar mais fundo da casa.
Ninguém olhava pra ela.
Nem os dois homens parados perto da porta de entrada.
Nem a governanta de cabelo prateado, de pé perto da escada.
Nem o homem de terno escuro segurando um envelope que eu imaginei ser o acerto da demissão.
No chão, entre eles, havia um porta-retrato quebrado.
Uma rachadura limpa cruzava a foto de uma mulher sorrindo em um jardim.
— Seu carro chegou — disse a mulher de cabelo prateado.
A garota assentiu.
Ela se abaixou, no automático, pra pegar os cacos de vidro.
— Deixa aí.
A voz veio de cima.
Baixa.
Masculina.
Sem raiva nenhuma.
Isso tornava tudo pior.
A garota se levantou tão rápido que a alça da mochila bateu com força no ombro dela.
Olhei pro corredor de cima.
Não consegui ver meu paciente.
Só um corredor escuro e um homem parado na entrada dele.
A mulher de cabelo prateado olhou pra mim.
Alguma coisa no rosto dela dizia agora não.
A garota saiu.
A porta se fechou atrás dela.
A chuva preencheu o silêncio.
Eu estava dentro da Mansão Blackridge havia menos de quarenta segundos.
— Clare Hensley?
A mulher de cabelo prateado olhou pra minha bolsa de enfermagem.
— Sim.
— Margaret Winslow.
Ela estendeu a mão.
Aperto firme.
Uns sessenta e poucos anos.
Cabelo grisalho cortado na altura do queixo.
Calça social preta.
Blusa creme.
A postura de quem passou décadas fazendo as emergências dos outros acontecerem na hora certa.
— Você é mais jovem do que eu esperava.
— As pessoas geralmente param de dizer isso depois que me veem trabalhar.
A boca dela se moveu de leve.
Não era um sorriso.
Talvez fosse aprovação.
Ela olhou pro porta-retrato quebrado.
Eu também olhei.
— O que aconteceu?
— Uma corrente de ar de uma janela aberta.
— E ela foi demitida por causa disso?
Os olhos de Margaret voltaram pros meus.
— O senhor Blackridge não lida bem com lembranças da mãe dele.
— Não foi isso que eu perguntei.
— Não foi.
Uma pausa.
— Você vai se sair melhor aqui se entender a diferença entre perguntas que precisam de resposta e perguntas que só satisfazem curiosidade.
Ajeitei a alça da minha bolsa.
— Eu sou enfermeira.
— Eu sei.
— Infelizmente, essas duas categorias se misturam.
Dessa vez o quase-sorriso foi de verdade.
Depois desapareceu.
— Vem comigo lá em cima.
A agência tinha chamado o trabalho de “colocação premium”.
Essa expressão significava perigo com carpete mais bonito.
Enfermagem particular, período integral, morando no local.
Casa e comida inclusas.
Dois vírgula três vezes o meu valor por hora.
Eu tinha perguntado pra minha supervisora, a Donna, por que quatro enfermeiras já tinham recusado a vaga antes de mim.
Ela disse que o paciente era “difícil”.
Perguntei o que tinha acontecido com as quatro.
Onze dias, no total, entre as quatro.
Uma nunca chegou a subir a escada.
Uma saiu depois de trocar um único curativo.
Uma durou dois dias.
