Na noite em que Declan Shaw me mandou sentar ao lado dele num jantar da máfia, todo homem naquela mesa olhou pra mim como se eu tivesse roubado um trono

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Chapter 1

Na noite em que Declan Shaw me mandou sentar ao lado dele num jantar da máfia, todo homem naquela mesa olhou pra mim como se eu tivesse roubado um trono. Mas o que aconteceu minutos depois foi pior, porque um único gesto silencioso do homem mais temido daquela sala fez todo mundo perceber que eu não estava sentada à direita dele por acaso.

Por três anos, eu sobrevivi dentro da Shaw Logistics me tornando invisível.

Oficialmente, eu era a assistente executiva de Declan.

Na prática, eu reservava voos particulares, cuidava de telefones que oficialmente não existiam, remarcava reuniões quando certos homens ficavam “indisponíveis” de repente, e aprendi exatamente em que momentos o silêncio valia mais do que curiosidade.

Eu sabia quem Declan realmente era.

Todo mundo sabia.

No papel, a Shaw Logistics era um império de transporte marítimo bilionário. Mas Declan Shaw era um chefe de máfia em tudo que realmente importava.

Homens baixavam a voz perto dele.

Os nós dos dedos dele quase sempre estavam machucados por baixo dos punhos de camisa franceses, caros demais para esconder aquilo direito.

Eu ficava porque financiamento estudantil não liga de onde vem o pagamento.

Então um envelope cor de creme apareceu na minha mesa.

Presença obrigatória.

Jantar Executivo da Shaw Logistics.

20h.

Sala Obsidian.

Tentei escapar imediatamente.

Na sexta-feira, eu já tinha até conseguido um atestado médico falso.

Declan mal olhou pra ele.

— Espero você lá às oito, Clara.

— Eu sou só sua assistente.

A caneta-tinteiro dele parou.

Depois os olhos dele se ergueram até os meus.

— Oito horas.

Aquilo encerrou a discussão.

Então eu comprei o vestido azul-marinho mais discreto que encontrei e peguei um táxi sob a chuva.

A sala de jantar privativa era exatamente o que eu temia.

Mogno.

Bourbon.

Diamantes.

Homens armados fingindo ser executivos.

Cada cadeira naquela mesa representava uma posição de poder.

Escolhi a cadeira mais afastada, perto da cozinha, ao lado do Higgins, do financeiro.

Foi então que Declan entrou.

A sala inteira se calou ao redor dele.

Terno de três peças cinza-chumbo.

Sem gravata.

A chuva ainda escurecendo os ombros do paletó.

Ele caminhou em direção à cabeceira da mesa enquanto Sullivan, um dos seus homens de confiança, preparava a cadeira à direita dele para a esposa.

Então Declan parou.

O olhar dele percorreu toda a extensão da mesa.

E pousou em mim.

— Clara.

Meu pulso disparou.

— Sim, Sr. Shaw?

Ele apontou para a cadeira ao lado dele.

— Você senta aqui hoje.

Todas as cabeças se viraram.

Eu quis desaparecer dentro do chão.

— Eu fico bem aqui.

Declan inclinou a cabeça de leve.

— Não vou repetir.

Então eu me levantei.

Caminhar por entre os homens de confiança, as esposas deles, e todo mundo tentando entender por que uma secretária estava sendo deslocada para o lugar mais importante da sala foi como atravessar um tribunal antes da sentença.

Quando cheguei perto dele, Declan puxou a cadeira ele mesmo.

Eu me sentei.

Depois ele serviu minha água.

— Respira — ele murmurou.

— Você parece que está sendo levada pra um fuzilamento.

— Eu me sinto assim.

Fiquei olhando pro prato.

— Por que eu estou aqui?

Ele ergueu o copo de bourbon.

— Porque estou cansado de te ver fingir que não existe.

O jantar começou.

Vinte minutos depois, Diane Sullivan finalmente se virou pra mim.

— Então, Clara.

O sorriso dela era elegante e cruel ao mesmo tempo.

— Acho que nunca fomos apresentadas direito. O pessoal do administrativo e as esposas não costumam ter muito motivo pra se falar.

A conversa ao redor da gente foi emudecendo.

Eu sorri.

— É um prazer, Sra. Sullivan.

Ela olhou pro meu vestido.

— Aposto que tudo isso deve ser muito emocionante pra você.

Antes que eu pudesse responder, Declan largou o garfo na mesa.

Depois ele esticou o braço, pegou meu prato — que eu nem tinha tocado — e colocou o dele no lugar.

Todo mundo olhou.

Eu olhei pra ele.

— Sr. Shaw?

— Você não pode comer frutos do mar — ele disse, com calma.

Meu estômago revirou.

Eu tinha contado isso a ele uma vez.

Dois anos atrás.

Durante um atraso de voo de doze horas.

O sorriso de Diane sumiu.

Declan se recostou na cadeira e olhou direto pra ela.

Depois disse:

— Se você vai insultar alguém na minha mesa, Diane, primeiro entenda direito quem você está insultando.

O silêncio que se seguiu disse mais do que qualquer resposta poderia dizer.

E foi só ali, naquele instante, que eu entendi: aquela cadeira ao lado dele nunca tinha sido um convite qualquer.

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