Na noite em que Declan Shaw me mandou sentar ao lado dele num jantar da máfia, todo homem naquela mesa olhou pra mim como se eu tivesse roubado um trono

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Chapter 5

Tudo aconteceu rápido demais pra eu processar direito naquele momento.

Um dos homens de Kessler se levantou de repente, a mão indo em direção ao paletó, e antes que eu entendesse o que estava acontecendo, Declan já tinha me puxado pra trás dele, o corpo inteiro se colocando entre mim e qualquer perigo na sala.

— Ninguém se mexe — disse Kessler, erguendo a mão pro próprio homem, a voz cortante. — Eu não autorizei isso.

O homem parou, mas a tensão na sala não diminuiu nem um pouco.

— Você não sabia do carregamento escondido — disse Declan devagar, os olhos fixos em Kessler, calculando cada palavra. — Isso não fazia parte do seu plano.

— Eu vim aqui atrás de mercadoria perdida — respondeu Kessler, e pela primeira vez, algo parecido com genuína irritação cruzou o rosto dele. — Se alguém andou usando meu nome pra armar uma cortina de fumaça dentro da sua própria empresa, isso é problema seu, não meu.

Foi Grant.

A certeza chegou em mim antes mesmo de Declan dizer qualquer coisa, só de lembrar do jeito nervoso, do olhar rápido pra mim naquela primeira noite, da urgência forçada demais na voz dele.

— Grant — disse Declan, como se lesse meus pensamentos.

— Quem é Grant? — perguntou Kessler, genuinamente confuso, o que, de forma estranha, confirmou tudo.

— Alguém que eu confiei há anos — respondeu Declan, a voz baixa, perigosa. — Alguém que decidiu que era mais lucrativo criar uma guerra entre mim e você do que continuar recebendo o salário que eu pagava.

Naquela mesma noite, os homens de Declan encontraram Grant tentando embarcar num voo particular pro exterior, o dinheiro do carregamento desviado já transferido pra contas que levariam semanas pra rastrear por completo.

Ele não negou nada quando confrontado.

Só disse que estava cansado de trabalhar nas sombras de alguém enquanto via oportunidades de milhões passarem pelas mãos dele sem nunca poder tocar de verdade.

Kessler, satisfeito com a devolução do carregamento e o nome dele limpo daquela armação, recuou completamente, deixando claro que seus problemas com Declan, quaisquer que fossem, ficariam para depois — e que eu, definitivamente, não fazia mais parte deles.

Mas a verdade que ficou, depois que a poeira baixou, não era sobre Grant, nem sobre Kessler, nem sobre carregamentos ou traições dentro da empresa.

Era sobre o instante em que Declan se colocou entre mim e uma arma sem pensar duas vezes, o corpo inteiro reagindo antes mesmo da mente processar o perigo.

Uma semana depois, sentados na varanda do apartamento dele, os dois em silêncio, observando a cidade se acender abaixo de nós, eu finalmente perguntei o que vinha guardando desde aquela primeira noite no jantar.

— Por que eu, Declan? De todas as pessoas naquela empresa, por que decidiu, naquela noite, que já não aguentava mais fingir?

Ele demorou pra responder, os dedos girando devagar o copo de bourbon que, dessa vez, nenhum dos dois tinha bebido de verdade.

— Porque em três anos, você foi a única pessoa que nunca teve medo de mim, e nunca tentou tirar vantagem disso também. Todo mundo ao meu redor quer proteção ou poder. Você só… aparecia. Fazia o trabalho. Ia embora. E, de alguma forma, isso significou mais pra mim do que qualquer lealdade comprada que eu já tive.

— Isso quase me matou, Declan. Literalmente.

— Eu sei.

Ele se virou pra mim, a expressão mais aberta do que eu jamais tinha visto nele.

— E eu vou passar o resto da vida tentando garantir que isso nunca mais chegue perto de acontecer de novo. Não porque eu preciso proteger um bem, Clara. Mas porque eu escolhi você, publicamente, diante de todo mundo que importa nesse mundo perigoso que eu construí — e não existe cadeira nenhuma que eu vá te tirar depois disso.

Peguei a mão dele, entrelaçando os dedos, sentindo o peso de tudo o que tinha acontecido nas últimas semanas finalmente assentar em alguma coisa parecida com paz.

Lá embaixo, a cidade continuava seu movimento de sempre, ignorante de tudo o que tinha quase desmoronado entre aquelas paredes de mogno e bourbon, semanas atrás.

E eu me perguntei quantas outras pessoas, em algum lugar, também estavam sentadas na cadeira errada de suas próprias vidas — esperando alguém, ou alguma coisa, mudar tudo com um único gesto silencioso à mesa.

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