Na noite em que Declan Shaw me mandou sentar ao lado dele num jantar da máfia, todo homem naquela mesa olhou pra mim como se eu tivesse roubado um trono

Written by

in

Chapter 3

Duas noites depois, saí do escritório mais tarde que o normal, o prédio quase vazio, só os seguranças do turno da noite circulando pelos corredores.

Marcus estava lá embaixo, encostado no carro, esperando pra me levar pra casa como vinha fazendo desde o jantar — uma mudança na rotina que Declan nunca explicou, e que eu nunca questionei em voz alta, apesar de sentir seu peso todos os dias.

— Boa noite, Marcus.

— Srta. Whitfield.

Ele sempre me tratava com uma formalidade estranha, quase protocolar, diferente do jeito casual que usava com o resto da equipe.

Entrei no carro, e assim que fechamos a porta, notei.

Um segundo carro, parado do outro lado da rua, dois quarteirões atrás de onde estávamos.

Não tinha nada de errado nisso, exceto que era o mesmo modelo, a mesma cor, que eu tinha visto estacionado perto da minha casa na manhã anterior.

— Marcus.

— Eu vi — ele disse, sem se virar, os olhos fixos no retrovisor. — Desde ontem.

— Por que ninguém me falou nada?

— Porque o Sr. Shaw não queria te assustar até ter certeza.

— E agora tem certeza?

Marcus não respondeu direto, o que já era resposta suficiente.

Ele fez três curvas desnecessárias antes de seguir pra minha casa, os olhos indo e voltando pro retrovisor o tempo todo.

O carro nos seguiu por dois quarteirões, depois virou noutra direção e sumiu.

— Vou avisar o Sr. Shaw — disse Marcus, tirando o telefone do bolso assim que estacionamos na minha rua.

Entrei em casa com as mãos tremendo mais do que eu queria admitir.

Menos de vinte minutos depois, meu celular tocou.

— Clara.

A voz de Declan estava diferente. Mais dura. Mais rápida.

— O que está acontecendo? — perguntei, sem preâmbulos.

— O carregamento de Rotterdam não sumiu por acaso. Foi interceptado por um grupo que trabalha pra Anton Kessler.

O nome não significava nada pra mim, mas o jeito como ele disse fez um arrepio subir pela minha espinha.

— Quem é esse?

— Alguém com quem eu tenho um problema antigo, que não tem nada a ver com você — até agora.

— Até agora?

Ele hesitou, e aquela hesitação me assustou mais do que qualquer palavra poderia.

— Kessler descobriu, através de alguém dentro da minha própria operação, que eu te coloquei naquela cadeira no jantar. Pra ele, isso significa uma coisa só: que você é importante pra mim. E gente importante pra mim virou, historicamente, gente que ele tenta usar contra mim.

Sentei na beira do sofá, o telefone gelado contra a orelha.

— Você está dizendo que colocaram alguém me seguindo por causa de um jantar?

— Estou dizendo que colocaram alguém te seguindo porque eu fui descuidado o suficiente pra deixar transparecer o que você significa pra mim, na frente de gente que só entende linguagem de poder e vulnerabilidade.

— E o que eu significo pra você, Declan?

O silêncio do outro lado durou tempo demais.

— Vou até aí — ele disse, em vez de responder. — Não saia de casa. Tranque tudo. Marcus fica na rua até eu chegar.

— Declan.

— Sim?

— Responde minha pergunta.

Ouvi ele respirar fundo, do outro lado da linha, como um homem prestes a admitir algo que passou anos evitando dizer em voz alta.

— Você virou a única coisa nessa vida inteira que eu realmente não suportaria perder. E isso, no meu mundo, é o tipo de informação mais perigosa que existe.

A ligação caiu logo depois, e eu fiquei sentada no escuro da minha sala, o coração disparado por motivos que já não sabia separar entre medo e outra coisa completamente diferente, olhando pela cortina entreaberta pra o carro de Marcus parado lá fora, uma sombra protetora contra um perigo que, até três dias atrás, eu nem sabia que existia.

← Capítulo AnteriorPróximo Capítulo →

Lista de Capítulos