Na noite em que Declan Shaw me mandou sentar ao lado dele num jantar da máfia, todo homem naquela mesa olhou pra mim como se eu tivesse roubado um trono

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Chapter 4

Declan chegou vinte minutos depois, sem bater — usando a chave que Marcus, aparentemente, já tinha lhe dado tempos atrás, uma informação que eu decidi guardar pra discutir em outro momento.

Ele entrou como um homem que tinha calculado cada passo do trajeto até ali, verificando as janelas, testando a trava da porta dos fundos, antes mesmo de olhar pra mim direito.

— Você está bem?

— Estou. Só… assustada.

Ele se aproximou, e pela primeira vez desde que eu o conhecia, vi as mãos dele hesitarem no ar antes de tocar meu ombro, como se não soubesse se tinha esse direito.

— Eu devia ter protegido isso melhor — disse ele, a voz baixa. — Devia ter esperado, planejado, feito diferente. Em vez disso, agi por impulso numa sala cheia de gente perigosa, e agora você está pagando o preço da minha impaciência.

— Você não fez nada de errado.

— Fiz, sim. Fiz a coisa mais egoísta que fiz em anos: decidi que não aguentava mais fingir que você não importava, sem pensar no que isso custaria pra você.

Meu telefone vibrou na mesa entre nós.

Um número desconhecido.

Declan olhou pro aparelho, depois pra mim, a tensão no corpo dele mudando completamente, ficando mais afiada, mais alerta.

— Não atende.

— E se for importante?

— Clara. Não atende.

O telefone parou de tocar, e um segundo depois, chegou uma mensagem de texto.

Sabemos o que ela é pra você, Shaw. Isso muda tudo o que você pensava saber sobre como essa história termina.

O sangue gelou nas minhas veias.

Declan pegou o celular da minha mão, leu a mensagem duas vezes, e a expressão no rosto dele foi algo que eu nunca tinha visto — nem no jantar, nem em três anos trabalhando ao lado dele.

Fúria absoluta, contida por um fio.

— Kessler quer uma reunião — disse ele, mais pra si mesmo do que pra mim. — Ele está usando você pra forçar minha mão.

— Então vamos até ele. Resolve isso.

— Não. De jeito nenhum. Eu não vou te colocar na frente desse homem.

— Ele já sabe onde eu moro, Declan! Ele já está me usando pra te ameaçar de qualquer jeito. Fingir que eu não faço parte disso não vai me manter mais segura, só vai me deixar mais indefesa.

Ele passou a mão pelo rosto, um gesto de exaustão que eu nunca tinha visto num homem tão controlado.

— Se eu levar você até uma reunião com Kessler, e algo der errado, eu nunca vou me perdoar.

— E se você não levar, e ele decidir agir sozinho, sem aviso nenhum? O que é pior, Declan — um risco calculado, com você do meu lado, ou eu esperando em casa sem saber quando o próximo carro vai aparecer na minha rua?

Ele ficou em silêncio um longo tempo, os olhos fixos nos meus, claramente travando uma batalha interna entre o homem que passava a vida calculando riscos e o homem que, naquele momento, só queria me trancar em algum lugar seguro e nunca mais deixar sair.

— Tudo bem — disse ele, finalmente. — Mas do meu jeito. Regras minhas. E se, em qualquer momento, eu disser pra você sair, você sai, sem perguntar por quê.

— Combinado.

A reunião foi marcada pra noite seguinte, num restaurante neutro escolhido por Kessler, cercado, segundo Marcus, por pelo menos oito homens dele espalhados pela área.

Declan levou quatro dos seus.

Entramos juntos, a mão dele firme nas minhas costas, um gesto que parecia menos proteção física e mais uma declaração silenciosa pra qualquer um que estivesse observando.

Anton Kessler nos esperava numa mesa reservada, um homem de aparência quase gentil, cabelos grisalhos bem cortados, o tipo de rosto que nunca seria notado numa multidão — o que, de algum jeito, o tornava mais assustador ainda.

— Declan — disse ele, sem se levantar. — E você deve ser a famosa Clara.

— O que você quer, Anton? — perguntou Declan, sem se sentar.

— Simples. Aquele carregamento que “desapareceu” era meu, retido por engano do seu pessoal há meses. Eu só queria de volta o que é meu. Mas aí você foi e me deu algo muito mais interessante pra negociar.

O olhar dele passou por mim, lento, calculado.

— Ela não tem nada a ver com nosso problema — disse Declan, a voz perigosamente calma.

— Ela tem tudo a ver, a partir do momento em que você decidiu mostrar pro mundo inteiro o quanto ela importa. Eu só quero meu carregamento, Declan. Devolve o que é meu, e a moça pode voltar pra vida tranquila dela.

— E se eu simplesmente resolver esse problema de outro jeito? — perguntou Declan, dando um passo à frente, a postura mudando pra algo mais perigoso, mais primitivo.

Kessler sorriu, sem humor nenhum no gesto.

— Então nós dois sabemos como essas coisas terminam, meu amigo. E dessa vez, ela está sentada bem no meio do caminho.

O silêncio que se seguiu foi cortado por um dos homens de Declan, que se aproximou depressa e sussurrou algo no ouvido dele.

O rosto de Declan mudou instantaneamente.

— O que foi? — perguntei, o coração disparado.

Ele me olhou, e pela primeira vez naquela noite inteira, vi medo verdadeiro atravessar os olhos dele.

— Encontraram o carregamento de Rotterdam. Não estava perdido, Clara. Estava escondido dentro do próprio prédio da Shaw Logistics.

— Isso quer dizer…

— Isso quer dizer que alguém de dentro armou tudo isso desde o início. E que essa reunião nunca foi sobre um carregamento perdido.

Era uma distração.

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