Chapter 2
O jantar continuou, mas o ar na sala tinha mudado de forma irreversível.
Eu sentia os olhares. Não precisava erguer a cabeça pra saber que cada pessoa naquela mesa estava recalculando quem eu era, e principalmente, o que eu representava agora.
Diane Sullivan não voltou a falar comigo diretamente. Mas passou o resto do jantar me observando por cima da taça de vinho, como quem estuda um problema que ainda não sabe como resolver.
Perto da sobremesa, um dos homens mais velhos da mesa — magro, óculos de aro fino, voz baixa demais pra alguém tão perigoso quanto todos ali claramente o consideravam — se inclinou na direção de Declan.
— Precisamos falar sobre o carregamento de Rotterdam — disse ele, num tom que tentava soar casual e falhava completamente.
Declan nem olhou pra ele.
— Não aqui, Grant.
— É urgente.
— Tudo é urgente pra você.
Grant hesitou, os olhos passando rapidamente por mim, como se calculasse se eu era um problema de segurança ou apenas um detalhe irrelevante.
— A questão é que o carregamento não chegou. E as pessoas que estavam esperando ele não são pacientes.
A mão de Declan, apoiada na mesa, se fechou devagar.
Só isso.
Mas foi o suficiente pra eu sentir o ar da sala ficar mais pesado ainda.
— Vamos conversar sobre isso amanhã, no escritório — disse Declan, a voz perfeitamente controlada. — Não na frente de convidados.
Grant recuou, murmurando uma desculpa qualquer, e o jantar seguiu como se nada tivesse acontecido — exceto que agora eu sabia de algo que, três horas atrás, eu jamais teria ficado sabendo sentada lá no fundo, perto da cozinha.
Um carregamento perdido.
Pessoas impacientes.
Eu tinha passado três anos evitando exatamente esse tipo de informação.
Agora ela tinha vindo até mim, só porque eu estava sentada na cadeira errada — ou na cadeira certa, dependendo de quem perguntasse.
O jantar terminou pouco depois das dez.
Os convidados foram saindo aos poucos, cada um parando pra cumprimentar Declan com um aperto de mão mais demorado que o normal, como se testassem a temperatura da relação com ele antes de ir embora.
Eu tentei escapar no meio da confusão de casacos e despedidas.
— Clara.
A voz dele me parou na porta.
— Sim, Sr. Shaw?
— Fica.
Não era um pedido.
Esperei enquanto a sala esvaziava, até restar só eu, ele, e os pratos ainda não recolhidos.
Declan serviu dois copos de bourbon e empurrou um na minha direção.
— Eu não bebo bourbon — falei.
— Hoje você bebe.
Peguei o copo, mais pela exaustão do que por vontade.
— Por que fez aquilo? — perguntei, finalmente, depois de um gole que queimou a garganta inteira. — Por que me colocou ali, na frente de todo mundo?
Ele se sentou, afrouxando o único botão do paletó que ainda estava fechado.
— Porque estou cansado de fingir que você é só uma funcionária pra mim.
— Eu sou uma funcionária.
— Você organiza minha vida inteira há três anos. Sabe coisas sobre mim que nem minha própria família sabe. E, mesmo assim, eu deixo você comer sozinha na sala de descanso enquanto eu janto com gente que eu nem confio de verdade.
Fiquei em silêncio, o copo entre as mãos.
— Isso é perigoso, Declan.
Foi a primeira vez que eu o chamei pelo primeiro nome.
Ele notou. Os olhos dele registraram isso com uma atenção quase física.
— Eu sei que é.
— Então por quê?
— Porque eu estou cansado de escolher segurança em vez do que eu quero.
As palavras ficaram entre nós, pesadas demais pra sala vazia àquela hora da noite.
— O que era aquilo com o Grant? — perguntei, mudando de assunto antes que eu dissesse algo que não pudesse desfazer. — Esse carregamento perdido.
O rosto de Declan se fechou, a máscara profissional voltando no lugar tão rápido quanto tinha saído.
— Não é assunto seu.
— Você acabou de me sentar à sua direita na frente de vinte pessoas perigosas. Acho que, goste ou não, agora é assunto meu.
Ele me encarou por um longo momento, algo entre respeito e preocupação cruzando o rosto dele.
— Rotterdam era uma entrega que devia ter chegado terça-feira. Não chegou. E as pessoas do outro lado desse negócio não costumam aceitar desculpas.
— Que tipo de pessoas?
— Do tipo que você reza pra nunca conhecer, Clara.
Terminei o bourbon de uma vez, sentindo o calor descer e se instalar em algum lugar no meio do peito, junto com um medo novo que eu ainda não sabia nomear direito.
— Eu devia ir pra casa — falei, me levantando.
Declan também se levantou, e por um segundo ficamos próximos demais, o cheiro de chuva ainda preso no paletó dele.
— Vou mandar Marcus te levar.
— Não precisa.
— Não era uma sugestão.
Ele pegou o telefone, e enquanto discava, acrescentou, num tom mais baixo, quase incerto — algo que eu nunca tinha ouvido na voz dele antes:
— A partir de hoje, algumas pessoas vão te ver de um jeito diferente, Clara. Eu devia ter pensado nisso antes de te colocar naquela cadeira. Eu só… não pensei direito.
— O que isso quer dizer?
Ele não respondeu na hora.
Só olhou pra mim com uma expressão que eu levaria dias pra entender de verdade — e, quando finalmente entendi, já era tarde demais pra desfazer o que já tinha sido colocado em movimento naquela noite.
