Chapter 1
Aries Thorne me perguntou por que eu estava no penthouse dele usando nada além da própria camisa social branca.
Eu deveria estar morrendo de vergonha, mas a camisa preta envenenada nas minhas mãos importava muito mais do que o meu rosto vermelho.
Até a meia-noite, o homem que todo mundo chamava de O Silêncio ia descobrir uma verdade aterrorizante: alguém próximo o suficiente pra vesti-lo estava matando ele, fio por fio.
O primeiro aviso não foi a descoloração no tecido.
Foi o silêncio.
O ateliê Brooks Custom Tailoring nunca era realmente silencioso, mesmo depois de fechado. O vapor sibilava saindo da máquina de passar. Os canos velhos estalavam atrás das paredes revestidas de veludo. O trânsito da Quinta Avenida murmurava além das cortinas vermelhas, feito um oceano distante de riqueza e pressa.
Mas naquela noite, o ateliê parecia lacrado.
Sienna Brooks estava sozinha sob as luzes quentes de latão, uma mão na mesa de corte, a outra pressionada de leve na curva macia da barriga, porque a ansiedade sempre a encontrava ali primeiro. O ar tinha cheiro de lavanda francesa, algodão quente, lã italiana e chuva umedecendo a cidade lá fora.
Naquela manhã, uma socialite com pulseiras de diamante e uma boca cruel tinha olhado Sienna de cima a baixo e rido.
— Uma alfaiate plus size fazendo ternos pra bilionários — a mulher tinha dito, alto o suficiente pras amigas ouvirem. — Que encantador. Ela também desenha barracas de camping?
Sienna sorriu profissionalmente.
Depois passou o dia inteiro engolindo o machucado que aquelas palavras tinham deixado.
Agora, passava das nove da noite, e ela levantou a camisa social preta de Aries Thorne da mesa.
A peça era perfeita.
Pelo menos, deveria ser.
Algodão Sea Island, preto como tinta, cortado nas medidas impossíveis dele: ombros largos, cintura estreita, gola alta adaptada pra sensibilidade sensorial dele, costuras escondidas suavizadas pra nenhuma emenda tocar a pele. Aries Thorne notava tudo. Um ponto torto. Amido sintético. Um fio que arranhava. Um perfume forte demais.
Pro público, ele era um bilionário filantropo que controlava metade dos interesses de transporte marítimo da cidade.
Pro submundo, ele era O Silêncio.
Um chefe da máfia que odiava barulho, desordem, perfume, jogos, e a maioria das pessoas.
Sienna passou uma lupa sobre a costura da gola.
E parou de respirar.
Uma sombra fraca, cinza-azulada, escurecia o forro interno, tão sutil que uma alfaiate comum culparia a luz. Sienna não culpou. O pai dela tinha ensinado que o tecido contava a verdade antes das pessoas.
Ela se inclinou mais perto.
Nenhum vestígio de lavanda.
Nenhum detergente natural.
Nenhum enxágue de cedro.
A camisa carregava alguma coisa quase invisível: uma ausência química, plana, onde deveria haver perfume.
O pulso dela disparou.
Ela pegou um cotonete, testou a gola interna, depois os punhos. A fita reagente mudou de cor devagar, passando de creme pálido pra um roxo amassado.
Toxina absorvida pela pele.
Ação lenta.
Feita pra contato repetido.
Feita pra entrar através do calor e do suor, se acumulando devagar até um homem com insônia, estresse e inimigos morrer do que pareceria uma falha cardíaca natural.
Sienna recuou da mesa.
Alguém estava matando Aries Thorne através das roupas que ela mesma fazia.
E quando ele morresse, cada costura envenenada levaria direto até as mãos dela.
O celular vibrou.
Killian Vale, chefe de segurança de Aries.
— Senhorita Brooks — disse ele. — A equipe de retirada está lá embaixo. O senhor Thorne espera a entrega do guarda-roupa no closet dele antes do briefing.
Sienna encarou a camisa preta.
Se ela entregasse, Aries ia vestir.
Se acusasse a pessoa errada, talvez não saísse viva daquele prédio.
— Eu vou entregar esse lote pessoalmente — disse ela.
Uma pausa.
— Isso não é protocolo.
— Nem é o que eu encontrei.
Uma hora depois, Sienna estava dentro do penthouse de Aries Thorne, carregando o porta-terno como se fosse uma bomba.
O hall de entrada era todo em mármore escuro, aço, vidro à prova de som, e o horizonte de Manhattan brilhando além das janelas riscadas de chuva. Um mordomo pegou o casaco dela com uma impaciência fria. Antes que Sienna pudesse falar, uma jovem empregada passou correndo e trombou nela.
Café preto quente se espalhou pela blusa de seda creme de Sienna.
A mancha se espalhou instantaneamente.
O mordomo empalideceu. — A senhorita não pode encontrar o senhor Thorne desse jeito.
— Eu preciso vê-lo agora.
— Precisa se trocar primeiro.
Ele a empurrou pra uma sala de apoio. — Camisas de emergência estão ali dentro. Cabide simples. Rápido.
Lá dentro, o cabide de emergência estava vazio.
Só uma camisa branca de botões pendurada num gancho de latão.
De Aries Thorne.
Grande demais, recém-lavada na própria solução de lavanda dela, macia como um suspiro e íntima demais pra tocar.
O elevador tilintou lá fora.
Sienna praguejou baixinho, tirou a blusa arruinada, e vestiu a camisa branca.
Ela engoliu os ombros dela, se acumulou nos punhos, e caiu até as coxas. Em outra mulher, talvez parecesse fantasia. Em Sienna, com os quadris cheios, os seios generosos e a cintura pequena, o tecido virou algo impossível de ignorar.
A porta da sala de apoio se abriu.
Aries Thorne estava ali.
Um metro e noventa e três, cabelo preto penteado pra trás, olhos prateados afiados o suficiente pra cortar vidro, colete cinza-chumbo moldado sobre um corpo poderoso. Uma tatuagem de corvo subia pela lateral do pescoço como se estivesse viva.
O olhar dele travou nela.
Depois na própria camisa.
A voz dele caiu num sussurro perigoso.
— Por que você está usando minha camisa?
O rosto de Sienna queimou.
Mas ela ergueu o porta-terno preto entre os dois.
— Porque essa aqui está envenenada.
Aries não se moveu.
Todas as luzes do penthouse piscaram uma vez.
Depois a voz de Killian estalou pelo alto-falante da parede.
— Chefe. Os elevadores de baixo acabaram de sair do ar.
Aries olhou pra Sienna, e todo o calor sumiu dos olhos dele.
— Eles sabem que você encontrou.
As janelas explodiram pra dentro.
