Chapter 3
O apartamento seguro ficava num prédio anônimo no Brooklyn, sem placa, sem porteiro visível, protegido por câmeras escondidas e um sistema de segurança que Killian verificou pessoalmente antes de permitir a entrada de qualquer um.
— Marcus não age sozinho — disse Aries, andando de um lado pro outro na sala minimalista enquanto Killian organizava equipamentos de comunicação numa mesa de vidro. — Ele é leal demais, ou era, pra bancar isso sem alguém puxando as cordas.
— Quem se beneficiaria da sua morte? — perguntou Sienna, sentada no sofá, ainda vestindo roupas emprestadas que Killian tinha providenciado às pressas.
— Muita gente, infelizmente. Mas poucos teriam acesso íntimo o suficiente pra chegar até roupas que só passam pelo seu ateliê.
— Isso restringe bastante a lista.
— Restringe pra praticamente uma pessoa.
Killian ergueu os olhos da tela, o rosto tenso.
— Chefe, você está pensando no seu tio.
— Reginald sempre achou que deveria ter herdado o controle das operações depois que meu pai morreu. Ele nunca escondeu o ressentimento muito bem.
— Mas ele não teria acesso ao ateliê da senhorita Brooks — argumentou Killian.
— Não diretamente. Mas ele conhece Marcus há mais tempo que eu. Foi Reginald quem recomendou Marcus pra minha equipe de segurança, doze anos atrás.
Sienna sentiu um arrepio.
— Então seu próprio tio pode ter colocado alguém de confiança dentro da sua segurança, esperando o momento certo?
— É exatamente o tipo de paciência calculada que Reginald sempre teve.
Killian digitou algo rapidamente no teclado, puxando registros financeiros na tela grande da sala.
— Chefe, encontrei transferências irregulares saindo de uma conta shell pra Marcus, nos últimos seis meses. Valores pequenos o suficiente pra não levantar suspeita imediata, mas consistentes.
— Consegue rastrear a origem?
— Estou tentando. A conta está bem escondida, mas nada é impossível com tempo suficiente.
Aries se aproximou da janela, olhando pra luzes distantes de Manhattan refletidas no rio.
— Precisamos de mais do que suspeita, Killian. Precisamos de provas concretas antes de qualquer confronto.
— E enquanto isso, senhorita Brooks fica em risco também — completou Killian. — Se descobrirem que ela identificou o veneno, ela vira alvo direto.
Sienna sentiu o estômago apertar.
— O que isso significa pra mim?
Aries se virou, os olhos sérios.
— Significa que você fica aqui, protegida, até resolvermos isso.
— Eu tenho um ateliê pra administrar, Aries. Funcionários, clientes, contas pra pagar.
— E eu tenho recursos suficientes pra garantir que nada disso sofra enquanto você está segura. Killian vai coordenar tudo discretamente.
— Isso é… muito. Você mal me conhece.
— Eu conheço o suficiente pra saber que você arriscou a própria vida pra me avisar sobre um veneno que poderia ter te colocado na cadeia se as coisas tivessem dado errado. Isso me diz mais sobre seu caráter do que qualquer conversa formal conseguiria.
O silêncio que se seguiu carregava um peso diferente do medo de horas atrás.
— Posso te perguntar uma coisa? — disse Sienna, finalmente.
— Pode.
— Por que “O Silêncio”? O apelido, quero dizer.
Aries hesitou, um raro momento de vulnerabilidade cruzando a expressão sempre controlada.
— Minha mãe morreu quando eu tinha sete anos. Depois disso, meu pai me ensinou que emoção era fraqueza, que palavras desnecessárias davam vantagem aos inimigos. Aprendi a ficar quieto. Observar. Guardar tudo por dentro.
— Isso soa solitário.
— É solitário. Foi solitário a vida inteira, até essa noite, aparentemente.
— O que mudou essa noite?
— Uma mulher vestindo minha camisa apareceu carregando um porta-terno como se fosse uma bomba, mais preocupada em me avisar sobre veneno do que com a própria segurança.
Sienna sentiu o rosto esquentar de novo.
— Eu só estava fazendo o que era certo.
— A maioria das pessoas ao meu redor há anos parou de fazer o que era certo, Sienna. Fazem o que é conveniente, o que protege a própria pele, o que garante posição. Você não pareceu nem considerar essa opção.
— Talvez eu simplesmente não seja esperta o suficiente pra pensar em mim mesma primeiro.
— Ou talvez você seja o tipo de pessoa rara que esse mundo deveria proteger, em vez de explorar.
Killian pigarreou alto o suficiente pra quebrar o momento, os olhos fixos na tela.
— Desculpem interromper, mas encontrei algo. A conta shell está ligada a um escritório de advocacia que representa… Reginald Thorne diretamente.
O rosto de Aries endureceu instantaneamente.
— Prova concreta?
— Documentação de transferências, datada e assinada digitalmente. O suficiente pra levar a qualquer promotor, mas também o suficiente pra colocar seu tio em alerta se ele perceber que estamos perto.
— Então precisamos agir antes que ele perceba.
